27.4.09

A MEDIOCRIDADE DA VIDA NORMAL


A mediocridade da vida normal

A solidão alegrava sua alma de poeta. Essa idéia não soava bem aos ouvidos das pessoas comuns. Parecia estranho, e era. Mas tão estranho e tão simples que se tornou realidade e a incompreensão dos outros já estava prevista em seus planos. A necessidade da angústia revelava seu destemor à morte. O que havia nele de diferente era mais que a simples diferença, era o gosto de estar só, era a coragem de pensar a vida como tal.
Os boatos correram velozes como o vento tempestuoso quando ele ousou ser o que planejava há anos. Mesmo sem saber ele já havia se transformado e todas as decisões já estavam tomadas. Bastava ele mesmo se perceber do que havia decidido ser. Todos encararam os fatos com surpresa. Uma surpresa falsa e disfarçada, certamente, pois ele tomou o cuidado de transmitir vários sinais preparando o dia decisivo. Como ninguém queria aceitar estes sinais agiram como se não fossem transmitidos e criaram em si mesmos o engano. Assim seria mais fácil culpar apenas um pela suposta repentina mudança. Mas a culpa também já estava prevista.
O dia fatídico demorou a chegar. Foram meses ou anos para se medir os pensamentos. Não sabia exatamente quanto tempo levou porque tinha certeza que vários momentos lhe fugiram da consciência. Isso também era esperado. Afinal não se pode evitar o inevitável e esse, não se pode conhecer. Se fosse possível calcular friamente todas as experiências que o formavam ele não seria o que é. Seria outro, mas esse fato, embora previsível é incompreensível. Na verdade ele mesmo tem dúvidas se é o que é ou se é o que poderia ter sido. Parece contraditório, mas no mundo das contingências tudo é possível, inclusive a necessidade. Esse era o ponto crucial que o diferenciava dos demais. Todos pensavam sob a égide do dever-ser. Ele pensava sobre o ser em si mesmo, e esse era seu escudo.
Houve quem o condenasse abertamente. Obviamente também surgiram os dissimulados assim como alguns que dissimulavam foram disseminados das suas relações. Ao cair da noite, quando a lua acompanhou seus sonhos, fez-se homem e escolheu a liberdade. As lágrimas foram inevitáveis. Vários choravam porque eram grilhões. Ele chorava porque sem grilhões perderia a segurança da normalidade. Esse era o preço líquido, a recompensa era incerta.
Tudo já estava bem ali claro e precisamente guardado como tesouro nos apêndices da memória. Mas viver aquilo ainda lhe causava certo temor e o desejo de enfrentar o medo era o que movia sua transformação. O único medo que restava era o de não sentir medo algum. Isso, porém, jamais deveria ser quebrado, pois sabia que o excesso de ousadia prejudicaria sua prudência e o tornaria um tolo ao invés de um herói.
Enfim juntou o que era necessário: livros, tabaco vinho e whisky. Este último para queimar a nostalgia e os outros para mantê-lo diferente. Sabia que poderia se arrepender, sofrer e ser difamado mas preferia isso a continuar vivendo naquela segura e feliz mediocridade a qual muitos chamavam de "vida normal".



4.4.09

ASSIM SOFREM OS AMANTES

Assim sofrem os amantes.

As pessoas sofrem porque pensam que amar é fazer um contrato para eternidade.
Esquecem que o amor é por tempo indefinido e que sempre morre.
Pode morrer após o primeiro beijo ou durar até a morte do corpo.
Mas isso não se pode prever embora sempre se deseje o mais duradouro amor possível.
Desejar não é o problema, o problema é exigir que ele seja o mais duradouro pois assim se esquece de vive-lo a cada momento.
Aquela história de "até que a morte vos separe" é correta, mas se refere à morte do amor e não do corpo.
Então quando se sente algo bom por alguém e esse alguém também se sente atraído, deve-se viver sabendo que pode morrer a qualquer momento, assim como a vida e, portanto vive-lo intensamente.
Contratos se fazem para garantias materiais como trabalho, carros, roupas e escravos.
No amor só há liberdade e, portanto, todas as possibilidades.
O último amor deve ser sempre o amor próprio.
Se você sofre por amar alguém é porque que está amando mais ao outro do que a você mesmo, então merece sofrer.
O único amor que deve ser mantido a qualquer custo é o próprio amor e quando este é mantido não haverá sofrimento.
Talvez algumas tristezas ou desapontamento mas nunca sofrimento

15.2.09

IN MEMORIAN


In memorian
Minha querida mãe, no seu frio leito de morte, falou-me mais que o silêncio que guardara em seu coração durante a vida toda. Beijei as mãos geladas da mulher que me acalentou no seu ventre caloroso e nos braços meigos de mãe. Hoje contemplo lembranças de dias, dores e alegrias que jamais voltarão.
Penso que todos os homens guardam segredos e sonhos assim como eu. Aqueles segredos jamais revelados e os sonhos que, mesmo realizados, nunca serão compreendidos pelos demais, nem mesmo pelos mais íntimos. O que pensava ela num olhar sentido e distante¿ Alma de mulher, voltada para o mundo que sempre foi menor que o desejo guardado em seu coração.
Quando jovem, tinha cabelos negros e longos. Agora na lápide tênue que abriga seu corpo os cabelos renascem uma vez que foram destruídos pelos anos árduos. O câncer enfraqueceu os braços fortes que me faziam dormir e cozinhavam com o sabor que jamais voltei a provar. Num ato de coragem, ousadia ou burrice, tornei-me solitário na amarga existência. O medo ainda paira sobre meu coração e luta numa incansável discórdia com a bravura contraditória que mantém meus dias ainda vivos.
Jaz na terra fria minha mãe querida. Jaz entre o céu e o pó aquela que sempre esteve tão perto e tão distante. O sangue que eriça minha epiderme circula com traços dos meus pensares mais íntimos tão ligados aos dela. Os olhares amigos que me consolaram jamais entenderão minhas lágrimas. O passar dos dias sepultará todas as noites aquilo que sinto e não sei dizer. Como todos os outros mortais por todos eles fui julgado culpado ou inocente.
As lágrimas são tão constantes quanto os sorrisos que me aprazem ao sentir saudades de um tempo que não volta mais. Que o futuro espere e o passado seja esquecido. O vinho ainda aquece minha alma. Tão em breve a dor se acalma até o instante que o amor de mãe ardente me faz arder nos segredos da existência mais presente. A sepultura regada em flores é fortaleza que protege seu corpo. Os dias que me afastam do teu calor sepultam a dor que me torna solitário e louco. Só me resta deixar o sol nascer e viver jovem e forte assim como me pedes no teu silencioso leito de morte.
Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo, 15 de fevereiro de 2009.
À minha Mãe, In memeorian.

12.2.09

O OBSERVADOR

O observador

Nas horas matutinas, quando o dia acorda a noite e a lua se despede da boemia, os deuses reencontram suas moradas. Ruas são sempre caminhos de ninguém. Calçadas, árvores, lixeiras e andarilhos não existem mais, são apenas coisas comuns à paisagem. O que existem são os anfitriões da noite e corruptos do dia. Horas e horas negando o ócio que faz o mundo girar em paradoxos inexoráveis.
Tantas pessoas aqui e ali num zigue-zague maluco. Aquela é tão diferente! Essa parece triste. Estaria aquela outra feliz ou esconde dores que só a alma conhece? O olhar segue os passos, os braços, os jeitos, o individual, o todo. Do alto é possível ver melhor. O que parecia cheio de diferenças é completamente igual. Do alto, a vida parece ou é, uma mera ilusão de ótica.
Para onde foram os sonhos que não se realizaram? Os sonhos não sonhados? Os sonhos frustrados? Vão todos para a morte, lá onde a noite começa e o dia termina como todos os outros. Qual a importância daquilo que você se importa? Toda casa tem uma porta. Isso não importa. Quem passa por ela, abre ou fecha, limpa ou entorta, traz vida ou deixa morta e vai embora. Compre um saco de batatas, um carro novo, fuja para a montanha, vá para o meio do povo. Não importa o que você faz ou com quem você está, no final, você sempre estará sozinho.
Nas horas vespertinas, quando o sol anuncia a lua e os deuses servem para nada, as ruas se derramam embriagadas do dia e o dia se entorpece de madrugadas. Deixem a paisagem se mover e os semoventes com suas dignas loucuras. Chamem as prostitutas e os padres, os intelectuais e os imbecis, as lixeiras e as calçadas, o tudo e o nada. Cantem hinos, bebam vinho. Aproveitem o dia fugaz – “carpe diem” - Festejem os anfitriões da noite e os corruptos do dia. Façam o que quiser estejam onde estiver. Somos todos meros desenhos da paisagem. A importância sempre depende de quem olha. E quem observa, observa sempre a partir de si mesmo.

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo, 08 de fevereiro de 2009.

14.12.08

MÁQUINA DAS CRIANÇAS GRANDES

Os homens morrem. Os homens choram. Os homens sofrem. Os homens, esses seres diferenciados pelo córtex cerebral, cansam do mundo imaginário que criaram. Cansam porque já é impossível derrubar tudo em um só golpe, como fazem as crianças com seus brinquedos. Os brinquedos do mundo moderno, tecnológico, inovador e tão arcaico como as primitivas sociedades coletoras. Onde está a dignidade?

A máquina que separa os grãos bons do que é mero resíduo, se transforma numa gigante e barulhenta máquina de jogos caça-níquel. O pó que torna insalubre o trabalho do operário suja suas roupas já velhas e o aliena na condição de assalariado. O perfume e o asseio dos nobres e intelectuais tupiniquins é excremento. Bem mais que o cheiro do suor misturado à terra, há nessas pequenas almas da escravidão, mais dignidade que nos ternos elegantes da burguesia prostituta (desculpem-me as prostitutas pela ofensa!).

Mais moedas, mais jogos. Alguns ganham pouco, outros ganham às vezes mas há aqueles que ganham sempre. Os críticos do sistema já estão mais podres que o próprio sistema. A crítica é apenas um passatempo enquanto postam outra moeda na máquina. Dê a eles o poder que criticam. Serão tão miseráveis quanto o cão que come os restos dos restos que o dono encontrou no lixo. O dinheiro é bom, é belo, é justo porque compensa a castração da infância. A infância sempre é triste para os que já cresceram. Longe de ser pessimista ou anarquista. O mundo é impressionante. Mesmo assim seria melhor, nascer, brincar, crescer o mais lentamente possível, compreender o mundo e morrer logo a seguir. Compreender o mundo é muito fácil, difícil é existir nele como um ser que compreende.

Olho a máquina barulhenta. São várias peneiras. Meu gênio criativo, herança da infância com poucos brinquedos comprados e muito inventados, se torna louco. Professor Pardal ficaria tímido com a idéia: uma máquina semelhante para separa as pessoas. Idéia abortada! Falhas na execução do projeto. Quem ajustaria as peneiras? Quem criaria a máquina? Quem pensaria os critérios de seleção? E onde colocaríamos tantos resíduos? Talvez no campo, para adubo ou engordar os porcos, como se faz com o resíduo dos grãos. Idéia abortada novamente. Já existe patente. Tal de Deus fez algo semelhante. Mas a máquina está cheia de defeitos e o inventor já não existe mais. Mesmo assim as crianças grandes continuam brincando com a máquina barulhenta e estragada. Por causa dela os homens ainda sofrem, ainda choram e ainda morrem.



Sidinei Cruz Sobrinho

Vacaria 14 de dezembro de 2008

28.11.08

DA COR DO AMOR


Da cor do amor

O vinho intenso rubi, cor de pecado selvagem que agora molha meus lábios, leva meus devaneios para além do desejo. Estou perdido nos encontros e desencontros da existência capciosa. Todos os dias são simples dias que passam. Carpe diem! Eis a regra. A voz sensual de Norah Jones traz no som do Jazz uma complexa harmonia que pertencem somente às almas livres. Como é doce e contraditória essa tal liberdade. Assim como o amor se tece nos beijos e nos sonhos do improvável. Combinação exótica de alquimista que resulta no elixir da possível felicidade.
Meu amigo está envolto em dúvidas. Os momentos indesejáveis, mas necessários, de solidão o aprisionam entre a imposta normalidade e o desejo do rompimento tradicional. Como amar? Quem amar? Por que amar? Caro amigo essas são dúvidas que não se pode cogitar. Ame, sofra, chore, fique isolado, crie vínculos, se aproxime e se distancie no mesmo ritmo que tua alma de poeta oculto exige. Lembre-se do grande poeta Ovídio, pai da Arte de amar. No amor não existe pecado. "É a arte com que a vela e o remo são manejados que permite às naus navegarem rapidamente, a arte que permite às carruagens correrem ligeiras: a arte deve governar o amor". Sejamos então nobres artistas. Se o amor não estiver envolto em magia deixa de ser amor e se torna qualquer outra coisa animalesca, fria, cartesiana, pode-se dizer. Se há magia o amor pode ser uno ou múltiplo, breve ou duradouro, mas sempre será eterno. Grande Vinicius de Moraes, nada como um poeta vagabundo para nos dizer o que é amar. Descobre-se a magia e com ela, descobre-se o mundo.
Tudo é provável, inclusive o impossível. Há gozo em tudo. Um livro, vinhos, cafés, musica, sexo, paixão, no lírio que nasce no campo ou no por do sol que se desmancha intocável e penetrante. Deve-se esquecer os devaneios psicológicos, as lições morais de um cristianismo decadente, a tradição de uma moral provisória e as regras que não criamos. Deixe-se de lado aqueles reles mortais que estão demasiado presos às regras de uma cultura manipulada. Todos morrerão sem nenhuma vida. Esquecidos devem ser os críticos que por serem incapazes de produzir gastam seu tempo com calúnias adversas. Que tenhamos todos o necessário para a sobrevivência e o acesso aos prazeres da existência. Brindemos com essa taça de vinho que aquece a alma. Brindemos às contradições que nos confundem, às ciências que nos tolhem a liberdade e a benevolência dos deuses que nos jogam no submundo da perversa sensualidade.
Meu único desejo, em tão perdido momento, não é a ausência de tormentos, mas que jamais se afasta de mim esse cálice de intenso fulgor, vinho rubi tal qual a cor do amor.

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo 28 de novembro de 2008

3.11.08

ENCONTRO E PERDIÇÃO

O ser humano é um ser que se perde no encontro. O ato de se encontrar é sempre um ato de estranheza e perdição. A estranheza se dá porque o "Outro" é inacessível, portanto, sempre estranho ao meu "Eu" que causa e é causado no encontro.
Perdição é o ato de desconhecer a si mesmo no encontro que é sempre diferente. Quer dizer, o encontro é imprevisível e sempre muda os que se encontram. A mudança é imperceptível em curto prazo.
A chuva se encontra com a semente e se perde no seio da terra que acolhe a própria semente. A semente se encontra com o sol e quando reencontra a chuva já é broto. Nos encontros e desencontros a semente se perde a si mesma e se estranha quando chove e o espelho de água formado ao seu pé revela a flor que ainda se imaginava semente e que se perdeu em si porque não percebeu a passiva mudança nos seus encontros.
Quando percebo o que mudou, já perdi aquilo que eu era. Nesse momento se dá a autoconsciência, que é o encontro comigo mesmo em tudo aquilo que fui, sou e poderei ser. O futuro é contingente. Apenas possível para encontros que fazem me perder do presente e morrer no passado. O ser humano sempre se encontra e se perde apenas e tão somente em si mesmo. Eis o dilema da existência.

Sidinei Cruz Sobrinho
Guaporé, 31 de outubro de 2008

10.10.08

ACIDENTAL

Acidental



Olho minha casa e ali, no canto esquerdo tem um canto de pássaro triste. Na janela semi-aberta, a fenda da à luz dois ou três raios de sol. Uma traça muito sem graça, faz seu exercício matinal sobre meus livros. Transformou a lombada das obras numa pista para corrida com obstáculos. Obstáculos sempre aparecem à minha frente. Correr é algo do qual já cansei.

Saio de casa e na rua há dois caminhos que levam para o mesmo lugar. Sigo pelo lado direito. O lado esquerdo me provoca a pisá-lo. O meio do caminho, no entanto, é sedutor porque nele corro todos os riscos. Para sair do dilema caminho em zigue-zague.

O passeio me cansa. Dou meia volta e estou em casa novamente. O canto continua triste, mas sem pássaro canoro. A fenda ainda está aberta, no entanto os raios de luz foram apagados. A traça foi destroçada quando derrubei o dicionário sobre ela. Preparava-se para um salto triplo e conseguiu um salto mortal. Desculpe-me. Foi acidente. Juro que não era necessário ser fatal. Foi mero acidente. Mas tudo na vida não é meramente acidental?



Sidinei Cruz Sobrinho

Passo Fundo, 9 de outubro de 2008

29.9.08

O espaço do meu Deus.


Sou um pedaço de meu próprio Deus
Que, para ser Deus, deve ser sempre maior que eu.
Sou o braço de todo meu alcance
Que sempre está no limite do meu infinito.
Vivo. Morro. Padeço.
Nasci e cresço
Dentro daquilo que me é possível ser.
Sou tudo aquilo que desejo
Mesmo sem desejar o que às vezes sou.
Ouço para além dos meus ouvidos.
Falo menos do que meus lábios mexem.
Mexo em tudo que me aguça à curiosidade.
Meu Deus sou eu, minha dor sem limites
E todos os espaço da liberdade.

23.9.08

TUCANOS, AMEIXAS E DEMOCRACIA


Quantos de vocês moram numa cidade grande e conseguem passar a manhã observando tucanos comerem ameixas na frente de casa? Posso imaginar a maioria das respostas: Moro em apartamento. Não existem árvores na frente da minha casa. Tucanos? Só no zoológico da universidade. O máximo que vejo são pardais. Algumas gerações de adolescentes são capazes de nunca terem visto um tucano livre e solto saboreando ameixas.
Vejo essa cena várias vezes e tem mais: lagartos comendo com meu cachorro no pátio, gralhas aqui e acolá, e outras espécies, tudo ali, no pátio da minha simples casa. Vão e voltam quando querem, não temem minha possível ação predatória.
Dias atrás minha sobrinha perguntou: "Tio, por que não o prende na gaiola?" Respondi: Porque eles não nasceram em gaiolas como nós. Percebem isso? Os apartamentos são gaiolas amontoadas com os mais suspeitos moradores. Casas sem árvores no pátio: - Uma gaiola que caiu do monte. Zoológico? - Ideia nostálgica da ignorância predatória. Pardais? - Uns passarinhos sem graça, cinzas como a poluição da cidade e que já esqueceram o que é uma sinfonia canora. Adolescentes? - Sinceramente, salva exceções, prefiro observar os tucanos e os lagartos.
Gosto da cidade, das criações tecnológicas e as regalias que me permite desfrutar. Mas penso que exageramos um pouco nisso tudo e esquecemos as coisas simples da vida. Quando se esquece o que é simples, tudo vira complexo. As relações se esgotam num amontoado de regras que a "sociedade" criou e que devo aceitar. Por favor, se alguém encontrar essa tal "sociedade" diga que a espero para um café e que precisamos conversar, pois discordo em gênero, número e grau da maioria das regras que "ela" criou. Se a resposta for: "- A sociedade somos nós". Então nós criamos as regras, logo podemos mudá-las, consequentemente não preciso seguir regra alguma apenas pelo motivo de vários acéfalos a terem seguido anos e anos sem questioná-las.

Conheço milhares de vermes com dois neurônios reproduzindo discursos chinfrins sobre "as coisas sempre foram assim", mas está louco pra que alguém (com mais coragem e inteligência) mude algo e ele possa aproveitar. "- O mundo está perdido!", exclama, mas procura se encontrar num monte de livros medíocres de auto-ajuda ou alguma nova onda de acrobacias metafísicas sobre como relaxar um pouco o pesado fardo da vida moderna. " - Quem não tem dinheiro pra viver é porque é vagabundo mesmo", afirma o “pseudo crítico” que fala isso sem ter a menor ideia do que significa capitalismo, economia, exclusão social e política. "- Não me envolvo em política." Reitera o bufão, se ao menos entendesse Aristóteles, saberia que "o homem é um animal político por natureza". Aquele que não sabe viver na sociedade usando a linguagem para descobrir e agir conforme aquilo que é bom, belo e justo ou é um deus ou um demônio. Continuo procurando a bendita "sociedade", pois todos os dias encontro milhares de deuses e demônios sem nenhuma capacidade de linguagem.
Passo na rua e as coisas da rua passam por mim. Época de eleições, a rua está minada de pessoas balançando bandeiras. Vejo aquilo e fico feliz: Viva a liberdade democrática. Paro e pergunto a um indivíduo gritando enlouquecido o nome do seu candidato: "O que é democracia?" Responde que "é o direito de votar em qualquer um". Saio de cena sem nenhuma felicidade, deixo aquele ser que se move sobre a terra saracoteando sua bandeirola e a certeza de que o governo será mesmo de qualquer um, mesmo que seja um deus ou um demônio.
Volto pra casa, cansado, pesado, nauseado. Tiro os sapatos e piso a grama verde e úmida, ascendo meu cachimbo, olho a ameixeira e lá está o pássaro, colorido e majestoso bem diferente da coisa fria política que vi estampada numa bandeira na praça. Aos poucos a terra leva meus males do mundo urbano e mesmo dentro de toda essa urbanidade encontro um pouco de silêncio gritante conversando com minha simplória reflexão.
Ao menos vou morrer depois de ter visto um tucano livre comendo ameixas e espero morrer bem antes que eles fiquem cinza como os pardais e sem linguagem como o humano que me explicou o que é democracia.

9.9.08

SIGNIFICADOS


Significados


Tenho aqui um bom vinho.
Várias garrafas.
Comprei mais cigarros,
Café forte e um livro.
Estou bem?
Não sei. Sinto a alma
Grande demais para meu corpo.
"In vino veritas"
Na fumaça a oferenda aos deuses;
Café para acelerar a taquicardia.
O livro?
Ah! Nele milhões de palavrinhas
À espera do meu significado.

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo, 10 de setembro de 2008.

24.8.08

O PRÓXIMO PARTO!!




O próximo parto.

Há um turbilhão dentro de mim. Uma legião desses seres enigmáticos com os quais luto desde o início de minha consciência. Já haviam me alertado de que o processo de pensar é doloroso. Nietzsche me avisou, num dos nossos secretos encontros bibliográficos, de que é "necessário ter um caos dentro de si para dar à luz a uma estrela." Quão doloroso é o parto das idéias. Elas nascem compulsoriamente, tornando a dor uma constante inseparável. Algumas morrem logo que encontram o mundo perverso onde deveriam sobreviver. Outras são prematuras. Ainda existem aquelas que teimam em não nascer e se mantém no íntimo da alma numa gestação eterna. Pensar, penar e pesar são muito mais que palavras rimadas, são golpes da autoconsciência que açoitam os sentidos, os sonhos o real e o virtual. Pensar é penar além das coisas. Pensar é o pesar que apesar dos pesares se mantém.
Todos os dias quando o mundo salta aos meus olhos inúmeros arquitetos começam a fazer cálculos e a redimensionar minha mente. Ali, nos recônditos do ser, ergue-se uma casinha medíocre, para abrigar os operários. Esses mórbidos e incansáveis víveres que se abrigam a espera do resultado. Mais adiante, num palacete, as poucas idéias que se estabelecem como válidas, triunfam, mas sempre temendo as que virão. Nunca se sabe quando uma idéia pode morrer ou nascer. A imprevisibilidade dos dias e dos pensamentos é um pesado fardo a se carregar.
Às vezes eu decido não ter mais idéia alguma. Logo me encontro nessa contradição, pois deixar de pensar também é fruto de uma idéia. Estou preso. É um caminho sem volta. Bastou o primeiro pensamento e tudo se amontoa sobre esse punhado de massa encefálica. Os ignorantes são felizes porque jamais pensaram. No entanto uma vez apenas que se ouse pensar, jamais se retorna ao estado inicial. A partir de então a solidão e a angústia se fazem companheiras irresolutas. Vez ou outra o turbilhão parece se acalmar e todo o esforço, enfim, aparenta ter sido válido. Contudo, basta uma folha cair da árvore, um mendigo morrer na praça, uma conversa despreocupada que seja e eis que a procriação reinicia. É uma pesada metamorfose que leva meses para dar vida a algo que poderá voar apenas por alguns dias. Decido continuar e me envolvo novamente como a larva solitária.
Pensar é sempre um ato solitário com a remota possibilidade de tornar-se solidário. A solidariedade é a arrogância de se dividir o que se tem com aquele que não tem. O "Outro", objeto da minha solidariedade mesquinha e volátil, pode não ter o que tenho, mas pode sempre ter aquilo que não tenho, inclusive uma idéia contrária, antídoto fatal a minha pretensa sabedoria. O diálogo implica sempre em morte e renascimento. É a lei da natureza que se propaga no espaço do pensamento. Também no mundo das idéias prevalece Darwin e a seleção natural das idéias mais fortes.
Toda a fuga é vã. Esses diabinhos que se amontoam em palavras e que se concretizam nos lábios gerando uma ação são as idéias. Se minha ação é fruto das idéias de outrem, chamo a isso de subordinação e sou feliz, porque a responsabilidade é de quem as gerou. Se agir conforme minhas idéias, chamo a isso de liberdade e carrego com ela toda a responsabilidade do meu pensar e a inevitável dor do próximo parto.

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo 24 de agosto de 2008.


27.7.08

COELHOS, TARTARUGAS E HUMANOS.


Os coelhos, as tartarugas e os humanos.

Sidinei Cruz Sobrinho


Os coelhos, as tartarugas e todos esses seres que aprendemos no ensino fundamental a chamar de "animais irracionais" são tudo aquilo que devemos ser para se viver na constante "felicidade". Quero dizer que a causa da infelicidade ou dos momentos de angústia existencial é a razão. Para não parecer um desses filósofos porra-louca que só criticam o cristianismo, referencio, como um dos argumentos de sustentação da minha hipótese, o próprio cristianismo: "Felizes os ignorantes, porque herdarão o reino dos céus". Esse trecho do sermão da montanha, aliás essa montanha deveria ser muito alta, pois o ar rarefeito deve ter afetado o cérebro daquele que a afirmou isso. (Pronto, agora voltei a ser filósofo porra-louca). Os ignorantes herdam o reino porque não questionam a possibilidade desse reino sequer existir. Assim, os irracionais e os ignorantes (esses são racionais, mas agem como os coelhos, as tartarugas...), todos marcham na mesma direção, ou por instinto, no caso dos primeiros ou por alienação, no caso dos últimos.
Quando pensamos nos angustiamos. É importante ressaltar que não se trata de uma angústia pessimista e depressiva. O desconforto existencial causados pelo pensar é característica da autocosciência, como diz Foucault; do ser autônomo (nomia = norma; auto = a si mesmo) que se contrapõe ao ser autômato (mecânico, programado externamente) como explica Eric Fromm; da liberdade no sentido que fala Jean Paul Sartre.
A autoconsciência é a capacidade de pensar a si mesmo como um ser capaz de decidir como, onde e quando agir. Daí deveriam nascer a ética, a política, a estética, a ciência e todas as ações humanas. Digo deveriam porque não são apenas os filósofos que agem sempre ou vez ou outra como porra-louca. Dúvida disso? Vá ao senado, à igreja ou a grupos burgueses. É da capacidade do ser humano pensar a si mesmo entre os demais seres que o torna capaz de "situar-se" e agir. Aristóteles se enganou ao afirmar que o homem é um animal político, um ser que, para viver fora da sociedade (pólis) ou é um deus ou um bicho. Se enganou porque a pólis hoje parece se regida por bichos e deuses sem abrir espaço para a reflexão. E novamente todos marcham ignorando a realidade. Estão na realidade mas não a pensam. Sendo assim a ausência da autoconsciência e todos buscam a felicidade no reino dos céus, que afirmam não ser aqui, ou na inevitável morte como mais um passo da natureza animalesca dos coelhos, tartarugas e esses seres que chamamos irracionais. Acho que fiquei maluco, mas vi um coelho dirigindo e uma tartaruga comprando uma casa na praia.
Após pensar a si mesmo no mundo através da autoconsciência é que conquistamos autonomia. A capacidade de dizer a si mesmo as próprias normas é o que caracteriza um homem autoconsciente. O coelho não diz: "Vou comer a cenoura porque estou com fome". Ele sente fome e come a cenoura que encontra sem pensar se poderia ter outro cardápio ou simplesmente não comer. Já viu algum bicho fazer greve de fome? Os humanos fazem greve de fome ou comem exageradamente porque decidem comer ou não. Sim, eu sei que alguns não comem! Mas é porque aqueles sem autoconsciência que falei acima, são deuses ou bichos capazes de considerar normal que alguns não tenham direito a comer ou que se não o fazem é por mera vagabundagem. O ser que não tem autoconsciência age como um autômato. É aquele idiota que vive dizendo que as coisas poderiam ser diferentes mas que a sociedade impões regras que devemos seguir. Um dia quero tomar um café e fumar um cachimbo com essa tal sociedade. Você já a viu? Pessoas que falam isso são autômatos. Repetem ordens, conceitos sem questioná-los. Seguem regras e não sabem dizer por que devem segui-las, ou porque essas regras são boas esse ainda são boas para a vida em sociedade em que vivemos. Quando muito, são moralistas medíocres que invejam aqueles capazes de questionar e agir mostrando que nem toda regra social deve ser mantida. Autonomia é muito diferente de libertinagem. Dar a si mesmo as próprias regras é o contrário de fazer tudo que quer. É agir como quer, mas somente após ter considerado tudo o que foi possível considerar. Desta forma não há individualismo, há sim ação livre com respeito aos coelhos, às tartarugas e também aos humanos. Só posso mesmo ter ficado louco, mas também vi uma tartaruga vestindo terno e ateando fogo num humano que dormia encolhido como um coelho na parada de ônibus.
Somente após a reflexão (autoconsciência) e a capacidade de ser autônomo é que se pode falar em liberdade. A liberdade exige responsabilidade. Responder com habilidade pelas ações que julgamos necessárias. Sempre exigimos liberdade e quando a temos não sabemos o que fazer porque esquecemos de pensar a nós mesmos. Ser livre é, em última estância estar sozinho. Sozinho não significa isolado. Estar só é estar quer dizer que toda a ação inicia e termina em razão de si mesmo. Ë impossível não temer e se angustiar frente a tamanha responsabilidade. Ter consciência dessa situação significa pensar antes de agir, ao contrário dos ignorantes que agem sem pesar na ação. A diferença primordial está no fato de que os ignorantes culpam a Deus, à sociedade por seus erros. Os livres são os únicos responsáveis por suas ações. Se um bom senso predominar, pessoas que pensam agem com maior responsabilidade, ética e respeito, inclusive pelos coelhos e tartarugas, aos outros humanos e a si mesmo. É aquilo que Foucault chama da "ética do cuidado de si". Definitivamente fiquei louco, ontem eu vi um coelho dizendo que a tartaruga não era livre porque carregava sua casa por todos os lugares. Um mendigo matou o coelho, fez um ensopado no casco da tartaruga e disse: "Eu sou livre para comê-lo assim porque não sou livre para ser humano."
Deveríamos aprender que os humanos são diferentes dos animais irracionais não apenas por sermos racionais, mas por dever usar essa racionalidade para tornarmo-nos autoconscientes, autônomos e livres. Do contrário em nada seríamos diferentes dos coelhos e das tartarugas. Uma felicidade constante só seria possível num reino cujos humanos fossem como Alice no país das maravilhas: igual aos coelhos, tartarugas e sem nenhuma razão.


Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo, 27 de julho de 2008.

3.7.08

Ao meu filho - Verso v


Ao meu filho - Verso V.

Filho!
Um dia tu te sentarás a minha frente.
Entornaremos uma taça de vinho,
acenderemos um cigarro
ou seja lá o que decidiu fumar
ou mesmo coisa alguma.
Tomaremos então um poeta e o leremos
da cabeça aos pés,
transpondo toda sua epiderme
até à alma.
Fecharemos o livro,
num breve momento de silêncio
teus olhos falaram nos meus;
meu riso ou minhas lágrimas
traduziram aquilo que somos.

Discutiremos sobre as coisas importantes da vida.
Nada de política, economia
ou esses livros chatos que somos obrigados a ler
para mantermo-nos vivos.
Falaremos sim das flores,
dos campos,
da alegria,
da dor,
daquilo que os homens tentam fugir e que sempre lhes salta aos olhos.

GOTA DE ORVALHO - AO MEU FILHO VERSO iv

Ao meu filho, verso IV.

Gota de orvalho

Querido filhinho,
Como és ainda pequenino não podes compreender minha voz
Por isso escrevo, para que um dia compreendas
Que teu nome, não por acaso, é nome de rei.
Tua vida vale mais que uma vida
Pois quando viestes à luz que faz o verde campo ter brilho,
Renovaste o sonho de viver deste teu pequeno pai.
Ah meu filho, tuas frágeis mãos seguraram esse pesado homem
para que não tombasse morto e frio sobre o solo já infértil.
Teus lábios frágeis
Abriram um sorriso do qual eu já nem sabia ser possível existir.

Guarda em ti essa vida e fazei-a germinar mil vezes.
Segue meu guerreiro Arthur, segue pelos campos,
Empunha tua espada e tua razão,
ambas controladas por tua inefável paixão.


Agora, em quanto meus pensamentos todos se voltam pra ti,
Quando o retrato imortaliza teu brilho,
O coração palpita os minutos que faltam
Para tê-lo em meus braços.
Assim, somente contigo e por ti
Ainda tenho passos a seguir.

Minha gota de orvalho que corrige
A tristeza da noite sombria.
Pequeno, tão pequeno e tão grande
Que encheu de todo minha vida vazia.

9.6.08

COMO ESCREVER UM POEMA





Você sabe quanto é doloroso compor um poema?
A alma precisa sangrar. O sangue precisa correr veloz até as mãos. Os olhos precisam ir além do infinito e encontrar as palavras certas, que moram muito além do próprio fim.
É preciso sentir dor, alegria, tristeza, estar embriagado, louco, depressivo e principalmente apaixonado, mesmo que odiando.
Todo o poema sob encomenda é ruim. Não se pode dizer o sentimento alheio.
Nunca pergunte ao poeta o significado do que escreveu. Se perguntar ele jamais dará a resposta.
Jamais leia os críticos. Eles têm inveja dos que sabem escrever.
Se você não consegue escrever um poema, continue tentando até ele nascer, e será sempre um parto normal.
Querer um poema antes do seu tempo é como rasgar a seda que envolve a lagarta para ver a borboleta antes de haver findada a metamorfose.
Se você ler um poema e não sentir nada, deixe-o de lado. Para você aquele poema é ruim.
Se ler e de alguma forma sentir a epiderme arrepiar ou uma leve angústia no peito, o poema é bom, mesmo que escrito pelo mais anônimo dos poetas.
Não leia em demasia, isso não te dará tempo para pensar. Também não leia muito pouco, isso te fará pensar sempre da mesma forma.
Em hipótese alguma leia um livro de poesias do início ao fim, é preciso pensar e remoer as palavras durante horas.
Se você ama, não copie versos para a pessoa amada, escreva-os. Ela não quer palavras bonitas, ela quer tua vida e só você saberá dize-la.
Não escreva sobre o que você sonha, escreva sobre o que você vive, mesmo que você viva como um utópico sonhador.
O importante é fazer com que as palavras escorram por tuas mãos e o papel grave em si todo seu DNA.
Evite procurar a inspiração ela é sempre mais inteligente que você e só se mostra no momento oportuno, seja por dias seguidos ou em intervalos de anos a fio.
Se você é uma pessoa série e cheia de compromissos, jamais irá compor.
Se for um bufão, também não escreverá nada.
Se for muito feliz, não precisas de poesia alguma e jamais a busque, porque descobrirá que a tristeza é possível.
Caso acredite em Deus ao menos se de a chance de pensar a impossibilidade dele não existir. Caso não acredite, nem pense, ele já te abandonou.
As regras da moral e dos bons costumes servem apenas para encher os vazios de espírito. Mas isso não significa que devas ser alguém sem bondade alguma.
Fume um cigarro, preferencialmente um cachimbo. Sim! Irá fazer mal à saúde, mas há tantas pessoas gozando de boa saúde e tão doentes de espírito.
Beba uma taça de vinho, duas, três, fique entorpecido e sinta dor de cabeça, assim quando escrever que está "embriagado de amor", saberá e entenderá para além das palavras.
Encontre um trabalho idiota qualquer para que possa sobreviver e o restante do tempo seja todo literatura.
Você sabe quanto é doloroso compor um poema? Se um dia souber perceberá que ali o poeta conseguiu fazer com que a paixão que o obceca se tornasse menos perigosa.

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo, 8 de junho de 2008.

O dia em que tive pena de Deus.

Hoje eu pensei em "deus" e, sinceramente, me compadeci do pobre coitado. Estava a gozar os tímidos raios de sol que aqueciam minha tarde de inverno. Ouvi duas vizinhas, possivelmente dessas pessoas que tem alguma tara por desgraças, pois narravam uma para a outra os últimos boletins de ocorrências policiais. E a notícia, nada nova, era de que a casa de fulano havia sido invadida por ladrões na noite passada. Na verdade as palavras da vizinha foram: "Assaltaram a casa do fulano". Eu imaginei um homem com uma "meia preta" na cabeça, arma em punho, dizendo pra casa: "Mãos ao alto", e a casa levantando o telhado apavorada, como naqueles desenhos infantis. Decidi apagar o cachimbo que fumava, pois com tal imaginação eu poderia ter me enganado no tipo de erva, então o que descrevi foi o que eu entendi que ela quis dizer. Mas não vamos entrar em discussões chatas de semiótica e semântica agora, afinal é domingo. Voltemos então ao tal deus que mereceu minha compaixão.
O comentário da outra vizinha para a notícia foi: "eu sempre peço a Deus que se tiver que acontecer - Deus me livre! - que seja quando eu não estiver em casa". E a outra continuou: "Meu Deus do céu, hoje em dia a gente só vê desgraças." A conversa continua nesse tom por alguns minutos. Falavam tanto em deus nisso e deus naquilo que até ergui a cabeça em direção a elas para ver se o "Cara" não estava ali com elas. Já pensou? Eu iria correndo pedir um autógrafo. Nossa, devo mesmo ter enchido o fornilho do cachimbo com alguma coisa estranha.
Como não estava interessado em continuar ouvindo a conversa nada produtiva sobre a tragicidade do mundo moderno, voltei meu pensamento para "Deus". Calma, não vou fazer nenhuma pregação de experiência divina e purificação da minha alma agnóstica. Compadeci-me de deus porque fiquei a imaginar como ela faria para atender tantos chamados. Como já disse Nietzsche, "o homem criou deus a sua imagem e semelhança". Sendo assim imaginei deus sentado num escritório, com ar condicionado, várias secretárias, visão ampla e alguns quadros avaliados em milhares de dólares, afinal de contas ele é "o cara", merece um local de trabalho à altura, ou seria "nas alturas"? Tudo bem, esquece a precisão conceitual, é domingo. Aliás, até nisso ele se encontra: domingo vem do latim dominus, dia do Senhor. Puxa vida, o cara é bom mesmo.
Droga! Fugi do assunto novamente. Desculpem-me, vou jogar fora aquele cachimbo. Imaginei deus lá, no seu escritório. Mil anotações: deus me ajude aqui; deus me salve ali; graças a deus acolá, se deus me ajudar nisso, meu deus naquilo e assim por diante. Quanto trabalho! Pior, em pleno domingo. Senti pena do abençoado senhor com tantos afazeres. Acomodei-me novamente ao sol, pois essa história me tirou a paciência. Para não tirar a tua paciência lendo isso concluo: Resolvi meu incômodo existencial exclamando para o vazio: Meu deus do céu, quando é que vamos deixar o bom senhor descansar um pouco e começar a assumirmos a culpa pelas nossas próprias incompetências!

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo, 8 de junho de 2008.

4.6.08

CIDADÃOS INCOMUNS


Cidadãos incomuns

Um amigo esteve em Amsterdã nas férias (quanta inveja!). Inveja mesmo depois de conversarmos através do MSN. Ele estava, na ocasião em um bar e me contou sobre o que acontecia: Viajantes de vários países realizavam um concurso para ver quem dizia mais "palavrões" no seu idioma pátrio. Isso deve ter produzido mais efeito nas suas almas que um ano de terapia. Melhor ainda, (por favor, crianças não leiam essa parte), fumava-se maconha no café da manhã e tinha chop à vontade. Se ele me contasse isso quando eu ainda era seminarista, iria correndo para a capela rezar pela alma desses pobres pecadores e voluptuosos boêmios. Mas agora eu me felicito com a alegria dos que, ao menos por alguns momentos na vida, podem ser inúteis, boêmios, vagabundos. O que me faz lembrar a canção de Miucha ao amigo Vinicius: "Meu poeta vagabundo, ah se todo mundo fosse assim como você!"
É bem verdade que todo mundo não pode ser vagabundo, alguém precisa ser útil, sério e "homem de bem". Como cantava Toquinho em Pequeno perfil de um cidadão comum: "Era um desses cidadãos comuns que se vê na rua, vivia o dia e não sol, a noite e não a lua (...) um homem de bons modos (...) feito aquela gente honesta, boa e comovida que caminha para a morte pensando em vencer na vida, que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida." Mas há muitos cidadãos comuns o que deixa margem à alguns serem incomuns. Ë bem verdade que estes precisam de coragem, audácia e, acima de tudo paciência para ouvir tantas críticas dos homens de bem. Estes são tão bons que além de serem úteis para o mundo ainda encontram tempo para formular regras moralistas e mesquinhas sobre como todos deveriam viver que, por óbvio, seria viver igual a eles.
Felizmente o meu amigo consegue ser um homem útil, com sua inefável crítica ao direito penal. Acredite, ele consegue ser advogado e ao mesmo tempo ler Sartre, Levinás, Habermas. Eu já disse que ele é como dizem os nossos alunos, "fora da casinha". Sinceramente espero que ele jamais volte pra "casinha". Afinal, além dos homens úteis que investem na bolsa de valores, constroem pontes e discutem as cansativas normas dos códigos sem antes ler a Constituição, precisamos também de provocadores que vão contra a ordem; que ainda sabem o que significa utopia e que, como o poeta, conseguem ter inspiração na construção discreta da vida.
Um dia desses ainda vou para Amsterdã. Mas até guardar dinheiro pra isso meu amigo e eu vamos sentar no bar da esquina, pedir um vinho e falar sobre coisas demasiado capciosas para os cidadãos comuns. Se quiser, aparece por lá, mas não leve moral alguma.

Sidinei Cruz Sobrinho

Passo Fundo 30 de maio de 2008

14.5.08

LÁGRIMAS DE OUTONO




Lágrimas de outono

Para onde foram as lágrimas perdidas naquele outono? Teriam se confundido com um dia chuvoso ou secaram ainda na face pelo vento norte que rasgava folhas nas árvores do pátio? Essa solidão que me é solidária carrega meus versos e rega o gramado ao amanhecer. Queria ter nascido da terra e ser fonte de vida. É bonito ver as plantas brotarem desse ventre oculto que germina, indistintamente, o lírio do campo e a erva daninha. Queria ter caído do céu. Mamãe dizia que os anjos moram lá. Se eu viesse daquele azul mágico, só poderia se anjo também.
Queria mesmo era ser tantas coisas mas sou tantas outras que nem sei. Vocês compreendem o que é viver em constante erupção? Queima-se por dentro e chega o momento em que se abre uma cratera enorme. Desta, correm lágrimas que ferrem que marcam e que se solidificam logo ali a frente, para sempre serem lembradas. Tudo é um grito lancinante que se imortaliza em outonos constantes.


Sidinei Cruz Sobrinho

Passo Fundo 13 de maio de 2008

8.5.08

Para não dizerem que só falava das dores, acordou para falar das flores.


O bom amigo, no auge da existência chamou a atenção do jovem perdido em sua essência: "Olha rapaz, abandone um pouco a angústia". Sim. Era preciso sair ao menos por alguns instantes daquela náusea existencial. Pensando nisso o jovem poeta repousou.
Ao amanhecer, o vento frio fazia as árvores parecerem encolhidas, como que abraçando a si mesmas. Alguns raios de sol cortavam a neblina da manhã. A paisagem não mudara muito do dia anterior, quando tudo parecia trivial e tenebroso. O olhar mudou. De repente a alma daquele moço foi tomada de certa alegria. Relembrou quando ainda criança partiu de casa em busca dos sonhos. Uma doce nostalgia embriagou seu espírito. Pensou na "rosa de Hiroxima", essa foi sua oração. Desejou o abraço da amada e sentiu o calor tocar o corpo. Pensou no amigo e agradeceu o conselho.
Sabia que logo estaria triste novamente. Gostou da alegria que sentiu e a apreciou bem mais do que se fosse sempre assim. Durante o dia teve muitas dúvidas, mas as guardou no bolso do casaco, para pensar amanhã, quando possivelmente estaria só. Enfim, viveu o dia em homenagem ao amigo. Para não dizerem que só falava das dores, hoje acordou para falar das flores. Não falou nada sobre elas, mas as olhou com atenção e guardou aquela lúdica imagem no mesmo bolso do casaco, junto às dúvidas, assim, quando voltasse a escrever sua angústia, as palavras continuariam tristes, porém com um leve toque de perfume.


Sidinei Cruz Sobrinho

Passo Fundo 06 de maio de 2008.

11.4.08

A VIDA COMEÇAVA AOS QUARENTA.



Já acompanhei a morte de muitas pessoas. Vários livros tentaram me ensinar sobre os prazeres que se descobre na velhice. O dito popular resume tudo: "A vida começa aos quarenta". Tenho vinte e sete anos e inúmeras vezes desejei ter "começado a vida". O que me provoca, essencialmente, é a incontestável dúvida: "Por que só se aprende a viver depois de tão velho?" Talvez a questão seja outra: "Se tantos, do vulgo ao mais elevado intelectual como Sófocles no "Aprendendo a envelhecer", Bobbio em "Elogio da serenidade", Schopenhauer no ensaio "A morte" e "Sobre o sofrimento do mundo", se todos esses e mais uma centena de milhares concluíram o mesmo e nos disseram isso, por que então não aprender com isso e começar a vida agora mesmo?"
Sei qual é a resposta mais prática: "Tudo ao seu tempo". Não aceito essa explicação, é supérflua e serve apenas como escudo para quem não tem a coragem de ariscar. Por que esperar os netos para aprender a amar os filhos? Por que esperar a velhice, para compreender os pais? Por que somente após sentir inúmeras dores no corpo se aprender a fazer exercícios físicos e a cuidar da alimentação? Por que trabalhar treze horas por dia se posso viver com apenas quatro horas de trabalho? Por que comprar uma piscina se não posso nadar nela a qualquer hora do dia? Por que ter o melhor carro se um razoável me ajuda? Por que rezar se posso rir com os amigos? Por que? Por que? Por que? Por que tantos por quês? É porque nunca temos uma resposta e então sempre inventamos outra pergunta.
Minha opção agora é outra. A vida vai começar aos vinte e sete. Não comecei antes não porque eu não sabia disso, apenas porque me faltava coragem. Nesse exato momento, enquanto escrevo essas linhas ou você se dá o tempo para lê-las, alguém está a fazer algo bem mais útil para o mundo. Esse alguém está a construir prédios, a investir da bolsa de valores, fabricando carros ou enfurnado num grupo de pequena conspiração tentando salvar a humanidade. Como Raúl Seixas, também eu "não quero tirar onde de herói" e nem "entrar pra história". Como o "maluco beleza" estou fora da lei e prefiro continuar essa "metamorfose ambulante".
Tenho ao meu lado um bom livro, uma xícara de café quente e forte, um cachimbo, árvores e uma solidão inefável. Me tornei poeta vagabundo, pra lembrar Vinícius de Moraes. Vivo diferente pra não ser como meus pais. Eles foram moralistas demais. Eu me perverti. Perverti-me para não ser como os demais, eles são simplesmente "demais". Posso estar profundamente enganado, mas certamente o mundo não se tornará pior por minha causa. Por esse motivo conto como sou, mas sem a mínima pretensão de coletar discípulos. Seja o que você quiser ser. Apenas pergunto se você sabe o que é? Pergunto isso porque durante anos eu não sabia quem era. Depois, por mais alguns anos e descobri isso e elevei ainda outros carnavais para aceitar e ser aquilo que inevitavelmente nos tornamos e deixaremos de ser, se houver tempo pra isso. A diferença é que alguns percebem e aceitam enquanto outros preferem não falar no assunto.
Maquiavel diz no "Príncipe", que o bom governante deve aprender com os mais velhos, seja para evitar cometer os mesmos erros, seja para ter exemplos de como se vence. Sempre discuto esse trecho com meus alunos do curso de administração de empresas. Trata-se de estratégia. Outra estratégia é aprender aproveitar as oportunidades. Isso, meus caros, é Maquiavel, sem nenhum traço de maquiavélico. São alguns exemplos que me fizeram pensar que não preciso esperar os quarenta para aprender a viver. A vida, pra mim, começou aos vinte e sete. Me tornei um "bon vivan". Moro numa pequena casa a qual chamo de Tapera da Poesia. Ganho o suficiente para me dar alguns pequenos prazeres (vinho, tabaco, whisky, livros, cuidar do meu filho, poesia, filosofia...). Tenho um cão para me lembrar a condição humana. Ainda encontro pedras no caminho. O meu mundo se tornou mais vasto e nem precisei me chamar Raimundo.
Há muito mais que tudo isso. Há coisas só minhas. Ainda verei muitas pessoas morrerem. Os mais velhos continuarão a ensinar coisas e talvez um dia também eu ensine, nem que seja a como não se deve viver. De qualquer forma, vou seguir nesse rumo, se os ventos mudarem e a velas estiverem frágeis, talvez eu mude, mas me recuso a essa pré-ocupação. Aliás, não vou mais negar o ócio. Isso é de somenos importância, pois há milhões de homens de negócios por aí que, com certeza, não vão parar. Sendo assim, me perdoem os desprivilegiados miseráveis que não podem viver como eu. Desculpem-me os que poderiam, mas lhes falta coragem. Agradeço a compreensão dos que compreendem mesmo discordando. Sinto muito pelos que vão esperar os quarenta para viver. Felicito aos que descobrirem que podem viver antes mesmo dos vinte e sete.

1.4.08

A MEDIOCRIDADE DA VIDA NORMAL

A mediocridade da vida normal

A solidão alegrava sua alma de poeta. Essa idéia não soava bem aos ouvidos das pessoas comuns. Parecia estranho, e era. Mas tão estranho e tão simples que se tornou realidade e a incompreensão dos outros já estava prevista em seus planos. A necessidade da angústia revelava seu destemor à morte. O que havia nele de diferente era mais que a simples diferença, era o gosto de estar só, era a coragem de pensar a vida como é.
Os boatos correram velozes como o vento tempestuoso quando ele ousou ser o que planejava há anos. Mesmo sem saber ele já havia se transformado e todas as decisões já estavam tomadas. Bastava ele mesmo se perceber do que havia decidido ser. Todos encararam os fatos com surpresa. Uma surpresa falsa e disfarçada, certamente, pois ele tomou o cuidado de transmitir vários sinais preparando o dia decisivo. Como ninguém queria aceitar estes sinais agiram como se não fossem transmitidos e criaram em si mesmos o engano. Assim seria mais fácil culpar apenas um pela suposta repentina mudança. Mas a culpa também já estava prevista.
O dia fatídico demorou a chegar. Foram meses ou anos para se medir os pensamentos. Não sabia exatamente quanto tempo levou porque tinha certeza que vários momentos lhe fugiram da consciência. Isso também era esperado. Afinal não se pode evitar o inevitável e esse, não se pode conhecer. Se fosse possível calcular friamente todas as experiências que o formavam ele não seria o que é. Seria outro, mas esse fato, embora previsível é incompreensível. Na verdade ele mesmo tem dúvidas se é o que é ou se é o que poderia ter sido. Parece contraditório, mas no mundo das contingências tudo é possível, inclusive a necessidade. Esse era o ponto crucial que o diferenciava dos demais. Todos pensavam sob a égide do dever-ser. Ele pensava sobre o ser em si mesmo, e esse era seu escudo.
Houve quem o condenasse abertamente. Obviamente também surgiram os dissimulados assim como alguns que dissimulavam foram disseminados das suas relações. Ao cair da noite, quando a lua acompanhou seus sonhos, fez-se homem e escolheu a liberdade. As lágrimas foram inevitáveis. Vários choravam porque eram grilhões. Ele chorava porque sem grilhões perderia a segurança da normalidade. Esse era o preço líquido, a recompensa era incerta.
Tudo já estava bem ali, claro e preciso, guardados como tesouro nos apêndices da memória. Mas viver aquilo ainda lhe causava certo temor e o desejo de enfrentar o medo era o que movia sua transformação. O único medo que restava era o de não sentir medo algum. Isso, porém, jamais deveria ser quebrado, pois sabia que o excesso de ousadia prejudicaria sua prudência o tornaria um tolo ao invés de um herói.
Enfim juntou o que era necessário: livros, tabaco vinho e whisky. Este último para queimar a nostalgia e os outros para mantê-lo diferente. Sabia que poderia se arrepender, sofrer e ser difamado mas preferia isso a continuar vivendo naquela segura e feliz mediocridade a qual muitos chamavam de "vida normal".

3.3.08

Ao meu filho - Verso I





Espero pelo futuro quando minha voz
Te venha à memória,
Num tempo em que a lembrança dos meus abraços
Ainda aqueçam teu corpo de anjo pequeno;
A canção de ninar inda soará em teus ouvidos e poderás sentir
Que fui e sou um dos teus amores.
Podes voar se quiseres e
Me deixar a ver o horizonte.

Voa pássaro meu.
Quero tua coragem, isso me basta.
Mas se sobrares um pequeno tempo
No teu vôo sobre o oceano
Lança um pensamento,
Um canto, dizendo:
- Pai eu te amo.
Assim, repousarei meus olhos sob a terra,
Saberei que desta minha vida pequena
Te dar a vida foi tudo o que me valeu a pena.

14.1.08

PRESENTE DE MORFEU


As pálpebras já pesam.
Olhos cansados e o olhar fugidio.
Epiderme refletindo pequenos tremores
Nascentes de um sistema nervoso perturbado.
Quando esse conjunto se forma
O mundo é minuciosamente analisado,
Passa a pesar como as pálpebras,
Quebrar sob a erupção nervosa.
Deprimido acordou, sentiu o peso da existência,
Deitou sem análise e analisou sem mundo.
Evoca Morfeu, o grande deus,
Aquele que contempla aos tristes
Gracioso presente:
- "Dorme homem moribundo".
Foi a ordem do bom deus.

O olhar cessou e com ele o mundo.
Algumas horas eliminam o pensar.
Dorme homem sem rumo e espera.
Espera a coragem chegar.
Só assim poderás completar a análise do mundo.
Só com ela poderás partir.

7.1.08

Hoje eu esqueci de existir


Hoje eu esqueci de existir

Hoje caminhei pela cidade. Porém não eram meus passos que tocavam o chão e nem meus olhos que percebiam as pessoas. Há muitas coisas para se ver e tão pouco para se pensar quando se está triste. Na maior parte do tempo olho para não ter que pensar, pois se fecho os olhos o mundo surge em minha mente. Quando fecho os olhos sinto dor.
Não deveriam existir as lembranças. Todas as lembranças são tristes mesmo aquelas sobre coisas alegres. Quando lembro de algo feliz fico triste porque aquilo já passou e poderá nunca mais voltar. Mesmo que volte não será a mesma. Também sou contra os tolos que, como eu, ainda sonho. Os sonhos são lembranças do que ainda não se tem. As lembranças são os sonhos do que não se tem mais. As lembranças e os sonhos não devem mais existir.
Tudo é tão simples, mas o medo e a esperança complicam a vida. Tenho medo da tristeza. Espero alegria. Nesse meio tempo, entre o medo e a esperança, deixo de existir. Quando passeava pela cidade vi muitas pessoas. Aquelas que eu deixei de ver não existiram hoje. Eu também não existi para aqueles que não me viram. Isso me faz pensar que existir é apenas uma possibilidade.
Para onde iam aqueles que caminhavam no mesmo sentido ou contrário a mim? O que pensaram as pessoas hoje? Eu procurei ficar de olhos abertos o tempo todo para ver mais e pensar menos. Mas foi inevitável! Agora, ao fim da noite já quase um ontem, eu me distrai e fechei os olhos. Uma breve distração que me fez pensar. Pensei que hoje eu havia caminhado pela cidade, visto coisas e pessoas. Ledo engano. Tolo que sou é impossível saber se pensaram em mim e, portanto, hoje caminhei pela cidade, mas não sei se hoje eu também existi. Aqui estou novamente, com medo de não ter existido e a esperança de ter existido. O bufão da corte sonhou novamente e mesmo tendo caminhado pela cidade, esqueceu de existir mais um dia.

10.11.07

ALUCINAÇÕES DE UM LEITOR

Sabedoria indexada nas folhas mórbidas do papel impresso. Riscos, letras, sílabas, palavras... todas cunhadas sob o esforço do exercício reflexo, onde os homens moram e morrem.. Odeio-os, pois aos milhares me cercam e os que me matam, também socorrem. Ortodoxos, sofistas, verdades, todos rondam a espreita da curiosidade, prontos para serem devorados pela boca da perplexidade.
Livros, estantes, pó, mofo e traças juntam-se numa receita lúgubre do novo, do verbo, da doxa ou da episteme. Didáticos, analíticos ou dialéticos, todos gritam num silêncio provocante:
“-Leia-me!”.
Inglês ou, francês, alemão, latim ou grego, português... Todos os idiomas, um só povo. Mil idéias. Todas compiladas nos frios corredores desta sala abandonada. Às vezes mais triste que os cemitérios, raramente visitada. As mortalhas diversas são corpos escondendo almas. Parecem viver. Escondem a alma do saber, da sabedoria os amigos.
Daqui nasce a cada dia um novo Hitler, Sócrates, loucos e sábios. O imaginável se torna possível num estalar de dedos e num piscar de olhos morre um anti-cristo ou renasce das cinzas um ateu. Num “lapsus mentis” morre um sábio, surge um político e não raras vezes um louco que deste cálice muito bebeu. Aqui está a cura de muitos males, mas também a causa deles. Dividem espaço o diabo e deus. Ali: Homero e a Odisséia,. Deste lado: a bíblia e Cristo. Do outro: a explicação sobre estes e também as controvérsias.
Tudo se esconde em algum lugar, num simples verbo ou na mais robusta enciclopédia.
Há o comum em tudo: o mistério maravilhoso, a insustentável ânsia pelo saber e caminhos diversos quais raízes que se entrecruzam, alimentando o mesmo caule. O cedro do conhecimento, o berço das dúvidas, a constante insatisfação dos que buscam tudo, mas descobrem nada saber.
Um necrotério para os tolos. Um jardim para os cultos. O presente, o futuro e o passado, cada qual em seu lugar; no lugar que cada um colocar.
Olho. E os amo.
Fujo! E continuo os amando.
Neles me enterro e com eles me enlaço numa viagem única, solitária e inesquecível

30.8.07

DEVANEIO

A arte, boa em si mesma,
Elevou sua beleza.
A náusea que precede esta catarse se esvai.
Permanece essa solidão querida
Tragando o mundo para dentro de mim.
Há luz e objetos a minha volta.
Também há tigres selvagens e borboletas coloridas,
Bem menos perigosos e mais atraentes que os
Transeuntes da calçada.
Os livros na estante, mutantes que são,
Agora são árvores e juntos, selva misteriosa.
O cachimbo vela o tabaco que queima
Oferecendo aos espíritos do mato
Um agradável aroma de pêssegos verdes.
O que era um vidro sobre a mesa,
Reflete agora em águas calmas,
O sol e o vôo dos pássaros.
Olho e não vejo meu reflexo
Porque não sou Narciso.
Sou pássaro também.
Mas como o céu parece distante hoje!

14.7.07

SOBRE AS PESSOAS MÁS.

- O que é a chuva papai?
- São anjinhos que choram do céu!

Era inverno, estava em meu escritório lendo quando meu filho entrou. Chovia muito e os galhos da araucária balançavam pesados no vento. Ele sempre me fazia essas perguntas de criança. Gostosas perguntas para um pai imerso na filosofia. Mas a minha resposta não havia sido uma resposta filosófica, foi apenas poética e tirada, não sei como, do enorme baú que em minha alma guardava idéias e pensamentos ingênuos do meu tempo de criança.
De pé, quase não enxergando sobre o limiar da janela, ele conseguia ver apenas as copas das árvores. Ficou ali, olhando longe na chuva que caia sobre o vidro, formando bolhas de saudade. Girei minha cadeira e com ele meu olhar também se perdeu lá fora. Foi quando meu filho olhou pra mim, em silêncio por alguns instantes, como sempre fazia antes de perguntar algo. Era como se ele estivesse procurando as palavras e palavras era o que não faltava naquela engenhosa cabecinha.
- Então eles devem estar muito tristes hoje papai.
Falou e voltou a olhar a chuva. Na sua mão direita segurava uma mamadeira e uma toalhinha na qual sua mãe havia bordado o nome dele e a levava por todos os lugares. Eu continuava olhando a chuva e havia dado atenção a ele com o canto dos olhos. Ele não se importava com isso, porque sabia que eu o olhava profundamente. Minhas respostas também demoravam um pouco a surgir e sempre havia aqueles majestosos minutos de silêncio na maioria dos nossos diálogos. Meu filho já esclareceu, sem saber, muito dos meus grandes dilemas filosóficos.
- Sim filho. Talvez eles estejam tristes hoje.
Às vezes eu me limitava apenas a reafirmar o que ele dizia e esperava que sua imaginação trabalhasse em busca da possibilidade de me dizer o que ele pensava.
- Papai!- ele falou agora com um sentimento de angústia que fez suas pequenas cordas vocais transmitir um som rouco e quase abafado - eu acho papai, que os anjinhos estão tristes porque há pessoas más.
- E o que são pessoas más filho?
- Ora papai, são aquela que magoam os anjinhos.
Nesse exato momento, vimos um catador de papel que passava na rua empurrando um carinho e dentro dele uma criançinha. Ia a passos rápidos. Meu filho olhou e sua mãozinha delicada se ergueu apontando ao transeunte.
- Veja papai. Um anjinho caiu do céu dentro do carinho daquele homem. Aquele homem, papai, não é uma pessoa má, porque ele está levando o anjinho de volta pro céu!
Foi assim que aprendi que é difícil saber quem são as pessoas más. Porém sempre se reconhece uma pessoa boa, mesmo que não se tenha filosofia ou idade pra isso.

3.7.07

EU E AS PALAVRAS


As palavras entram em ebulição. Lá dentro, não sei certo aonde, vão aquecendo e explodem veias, músculos e ordenam que meus lábios falem ou que minhas mãos escrevam. Se as contiver, pela angústia serei contido. Algumas até morrem, mas outras são maiores que eu e precisam nascer.

As palavras são diferentes das coisas e assim fica difícil saber o que são coisas e que coisas são as palavras. Penso que a alma quieta é uma alma sem palavras; uma alma ainda não germinada. "E o verbo se fez carne e habitou entre nós". Deus é isso, palavra. Amor? Palavra também. Dor, alegria, tristeza, saudade... Algumas palavras doem no silêncio da alma, outras palavras doem nos ouvidos e outras ainda, nos lábios.

Que sentido tem a palavra? É difícil responder. O que algumas palavras fazem sentir é o sentido que têm ou o sentido que damos a elas?
Silêncio também é palavra. Talvez a palavra mais cheia de sentido, porque quando não ditas, todas as palavras podem vir a ser. Por isso o silêncio é tão misterioso. Quando alguém fica em silêncio, nossas palavras tentam dizer as palavras que o outro não diz. Nesse caso, melhor é nada dizer.

Wittgenstein, um filósofo alemão que abandonou as aulas na faculdade para ensinar criancinhas, dizia no famoso aforismo sétimo do Tractatus Lógico- Philosophicus, que sobre aquilo que não se pode dizer, deve-se calar. Imaginei a humanidade toda em silêncio. O que realmente podemos dizer? Talvez seja por isso que ele foi dar aulas para crianças, elas sempre pedem o que são as plavras.

Sempre que dizemos algo o conceituamos, o (de)finimos e portanto o limitamos. Compreender algo é ter a capacidade de pega-lo e fecha-lo num círculo imaginário, dentro do qual tudo o que dizemos está ali e aquele algo não é nada senão aquilo que está ali. Como posso fazer isso com o amor, Deus, a felicidade, a tristeza, a dor, a ética, o ódio, a inveja e milhares de outras palavras que sempre fogem do círculo. Algumas palavras explodem de dentro de nós apenas para nos deixarem confusos. São como anjos malignos que zombam da nossa mediocridade.

Sempre que tenho essas convulsões lingüísticas eu tenho vontade de abandonar o mundo das palavras, porque minha alma dói. Já tentei, mas "eu" também é uma palavra. Como faço para fugir de mim mesmo?

1.5.07

Me ame!!

Usei mil artifícios para conquistá-la, mulher cativa de sorriso brando que me botou quebranto e me fez apaixonar. Fui ousado e me aproximei, lembra aquela vez? Aproximei-me bem devagar. Você negou-me um beijo, mas não o desejo de te amar. Noutra ora derradeira, você deixou de brincadeira e se entregou ao meu beijar. Agora, porém eu queria ainda mais e você não quis. Insisti dezenas de vezes, mas nesta luta fui infeliz. Penso, aqui com minhas pilhérias, que não fez isso porque é séria, fez apenas por diversão.

Seu prazer, morena sensual, está em me causar mal, ver-me, bobo e sem razão, implorar tua paixão. Você diz que meu amor é fraco, me usou como capacho e vem agora dar lição? Tudo bem, menina levada, entrei na sua piada, não me importo com isso. Mas tome cuidado, porque estou apaixonado e no seu coração ainda posso fazer rebuliço. Deixa disso, me chama para teus braços. Venha aqui, vamos nos divertir. Viver a vida que é bem curta e o amor que é sempre passageiro. Se me queres, venha ligeiro, porque meu amor é pássaro e voa altaneiro.
Você me quer, teus olhos dizem. Mas seu EGO é bem maior que seu ID. Sorte a sua se isso for verdade, grande parte da humanidade irá dizer que você é moça de família. Para que isso serve? É na cama que a vida ferve é no beijo que se tem o céu. Deixa pra lá essas tolices, de uma cultura de crendices que não quer nosso prazer. Veja bem sensual mulher. Teu corpo é puro pecado. Eu já decidi, não quero ser perdoado, prefiro ser teu pecador. Dai-me algumas horas ao teu lado e verás o que significa o amor.

Você insiste e diz que não me quer. Tudo bem, mulher, você é quem decide. Se meu amor te agride, vá, fuja para onde quiser. Irei te esperar ainda um pouco, porque por você sou muito louco e quero te amar. Ande, vá lá onde seu desejo se esconde e com ele pereça na ausência desse prazer. Quanto a mim, estou aqui ou ali, não sei. O que sei é viver.

Durante alguns dias, pare e pense. Pode continuar a me chamar de bobo e a confiar no teu sexto sentido. Ele que tem te proibido de ser feliz. Se tu tens a sabedoria, que ela seja tua guia. Quem me conduz é a poesia, e do amor sou aprendiz. Não sigo, dos outros os preceitos. Eu mesmo desenvolvo meus conceitos, sou livre e boêmio. Se dos seus pensamentos, surgir o julgamento que sou nada pra você, siga em frente, adeus, foi um prazer te conhecer. Porém, se ao contrário, mesmo preza a um rosário seus desejos se voltarem a mim. Venha correndo amada, jamais serás abandonada, se me amares como te amei. Se não sabes, eu sei. Entregue-se a mim e tudo o que queres em amor te entregarei.

29.3.07

A EXISTÊNCIA

O mundo, repentinamente, parece se lançar sobre mim como um cão raivoso. Os postes, como guardas discretos a me observar, enfileirados em sua onipotência ereta. A calçada calcula meus passos. As árvores registram meu pensar através da leitura molecular da minha respiração. Até a fumaça do meu cachimbo redemoinha em torno do meu rosto tentando me sufocar. Traidora miserável que tenho por companhia inseparável.
As pessoas passam depressa. Estariam fugindo de mim? Mas não sou eu o monstro, seus desgraçados! Quero sair daqui, mas minha razão está inerte. A poesia me prende no mesmo lugar e os significados emudecem minha voz.
O cão vira-latas é o único que demonstra compreensão. Talvez porque se sinta a minha altura. E minha altura já se sente e se senta no chão. O caminhar cessa e agora rastejo. A força dos braços é menos resistente que a folha apodrecendo na sarjeta. Rolo sobre as pedras e esbarro na folha seca. Tento retirar dela os vermes e trazê-los perto de mim para que me consumam com maior rapidez. Até mesmo estes me ignoram.
O mundo é mal. A maldade está corrompendo as estrelas e a noite é coberta de cinza. A dor já retrai meus músculos e os espinhos entranham minha epiderme. O texto foge dos meus livros e as páginas ficam amarelas na medida em que as folheio. A vida fica insossa, inodora e incolor.
Com sofreguidão ergo as míseras pálpebras pesadas e vejo os pés da Morte montando guarda. Morfeu ri e se afasta. Grito! E o grito se perde antes mesmo de tocar os lábios. No último e desesperado esforço caio além do chão em que me encontro. A terra se abre numa fenda minúscula e nela desapareço imperceptível ao mundo que fica.

O DIA E A NOITE


O dia,
cansado de viver,
transformou-se em noite.
A noite,
cansada de morrer,
deu à luz o dia lambuzado de esperança.

8.3.07

AMADA

Amada.

Por que, mulher amada,
Tão ingrata és?
Matas,
Tua ingratidão mulher.

Homem algum pode te amar tanto.
Cega, não vê tão grande amor.
Olhos em pranto,
Sofro encantos e sofro dor.

A quero nos braços meus,
Dias e noites sem fim.
Não me deixe, rogo a Deus,
Não mereço penar assim.

Tanta dor,
Por não estar junto a ti.
se morto me encontrares amor,
Por que te amo é que morri.


Saudades

Todos os bares,
Todos os lugares,
Todos os sentidos
Eu procurei.
Não encontro vestígios
Da mulher que amei.
Por onde andarás,
Quem estarás amando
Sem normas nem lei?
Amor libertino
Quero novamente sentir,
Sou menino,
Após o prazer me aninho,
Em teu colo dormir...

MULHER

Mulher...

A mais bela orquídea,
Aurora da manhã.
Doce mel silvestre,
Cantar do rouxinol.

Lírio do campo,
Mistério do amor.
Crepitar das chamas.
Exemplo de quem ama.

Águas cristalinas.
Pétalas de flor.
Pássaro que canta o amanhecer,
Pôr do sol ao entardecer.

Resplandecente, meiga e amável.
Obra de Deus.
Acolhedora e compreensiva,
Mulher forte, decisiva.
Início de minha vida.
Fim de minha dor.
Bravio e protetora.
Mulher salvadora.
Todas as flores unidas.
Maravilha da vida.
É mãe...
E nada faz sentido sem você.

O POETA E A MULHER, ou A POESIA E O AMOR


O que pensam os poetas, das mulheres?
Nada.
Simplesmente as amam de corpo e alma.
A única racionalização do amor é esta
E nada se pensa além disso.
O amor vive-se no olhar, no desejo, no gozo...
Por isso os poetas não “disputam”, mulheres.
Ou o amor é possível,
E se realiza;
Ou que procure seu par.
O poeta apenas sabe estar ali, onde o amor está.
Se ambos estiverem a fim um do outro,
E isto se percebe no olhar,
Sorriem e se encontram
Sob o testemunho do solitário luar.
Caso contrário,
Também sorriem;
Mas parte cada um para seu viver;
Sós, sem esperar ou insistir,
Sabem que viverão felizes,
Mesmo não estando pertos.
Sabem que no momento certo

O puramente simples irá surgir:
O olhar, o desejo, o gozo
.

18.2.07

minha caixa de cachimbos



Na minha caixa de cachimbos há muito mais que nostalgia.. há livros, cafés, cancões de amor e poesia...

26.1.07

Mulher artista


Mulher artista.
Arteira faz arte
barroca e louca na minha visão.
Artimanhas planejo
para o furto
do corpo oculto da artista.
Tomar-lhe-ei as cores.
Flores, por brincadeira
dar-te-ei em moldura.
Completam-se:
teu beijo e meu desejo,
tua arte e minha loucura.

20.1.07


A beleza e o encanto dos dias de alegrias que espantam o pranto doloroso do homem solitário trouxeram consigo a tristeza e o canto das orgias perdidas em noites de abandono

3.12.06

"ALUCINAÇÕES" DE UM BIBLIOTECÁRIO

“Alucinações” de um bibliotecário

Sidinei Cruz Sobrinho[1]

Sabedoria indexada nas folhas mórbidas do papel impresso. Riscos, letras, sílabas, palavras... todas cunhadas sob o esforço do exercício reflexo, onde os homens moram e morrem.
Odeio-os, pois aos milhares me cercam e os que me matam, também socorrem.
Ortodoxos, sofistas, verdades, todos rondam a espreita da curiosidade, prontos para serem devorados pela boca da perplexidade.
Livros, estantes, pó, mofo e traças juntam-se numa receita lúgubre do novo, do verbo, da doxa ou da episteme. Didáticos, analíticos ou dialéticos, todos gritam num silêncio provocante:
“-Leia-me!”.
Inglês ou , francês, alemão, latim ou grego, português... todos os idiomas, um só povo. Mil idéias. Todas compiladas nos frios corredores desta sala abandonada. Às vezes mais triste que os cemitérios, raramente visitada. As mortalhas diversas são corpos escondendo almas. Parecem viver. Escondem a alma do saber, da sabedoria os amigos.
Daqui nasce a cada dia um novo Hitler, Sócrates, loucos e sábios. O imaginável se torna possível num estalar de dedos e num piscar de olhos morre um anti-cristo ou renasce das cinzas um ateu. Num “lapsus mentis” morre um sábio, surge um político e não raras vezes um louco que deste cálice muito bebeu. Aqui está a cura de muitos males, mas também a causa deles. Dividem espaço o diabo e deus. Ali: Homero e a Odisséia,. Deste lado: a bíblia e Cristo. Do outro: a explicação sobre estes e também as controvérsias.
Tudo se esconde em algum lugar, num simples verbo ou na mais robusta enciclopédia.
Há o comum em tudo: o mistério maravilhoso, a insustentável ânsia pelo saber e caminhos diversos quais raízes que se entrecruzam, alimentando o mesmo caule. O cedro do conhecimento, o berço das dúvidas, a constante insatisfação dos que tudo buscam mas descobrem nada saber.
Um necrotério para os tolos. Um jardim para os cultos. O presente, o futuro e o passado, cada qual em seu lugar; no lugar que cada um colocar.
Olho. E os amo.
Fujo! E continuo os amando.
Neles me enterro e com eles me enlaço numa viagem única, solitária e inesquecível.

[1] sidinei@faplan.edu.br Filósofo, boêmio e Poeta.

24.11.06

EU EM MIM MESMO

Eu em mim mesmo


Sou sempre dois,
Com tendência à vários.
Sou como Pessoa,
Um "fingidor".
A dor que sinto
Diz, porque minto,
Ao mentir com tamanho afinco.
Escondo-me de mim mesmo,
Ficando a esmo com meu eu pensante.
O filósofo, pensa!
O outro eu,
Um boêmio errante;
Que dá à luz um terceiro,
Miserável poeta vibrante!.


Estamos aprisionados,
Mesmo distantes...
Mesmo livres
Há algo que nos prende,
Algo que não se compreende,
Que o tempo insiste em dizer.
A chuva molha os pensamentos
Na distancia que nos separa
Mesmo assim eles chegam quentes
Como que se protegidos
Por um amor abundante e contínuo
Daqui ali,
Do outro lado onde me queres
Ligado ao meu querer
Você pensa, e eu penso.
Pensamos e amamos
E não sabemos o que é o amar
Não sabemos o que pensar
Porque o pensar nem sempre resolve
Assim, nosso desejo se envolve e se revolve
No borbulho do amor.

O DONO DA TABACARIA


O dono da Tabacaria
(Uma inspiração em Fernando Pessoa)

Nessa miserável existência
Que bom é encontrar o sorriso do dono da Tabacaria,
Ele que tem a chave das portas que se abrem
E fornecem meu único prazer...
Esvair-me em fumaça como o fumo;
Ser tragado pelos dias e
Expelido pelos sonhos...
Ah! Existência!!!Bela, confusa e desgraçada existência.....

2.11.06

O QUE FAÇO NO FERIADO DE FINADOS


No "dia dos finados" não vou mais ao cemitério ou a missa por dois motivos:
1- Não estou mais submisso às ordens da minha família cristã nem aos padres do seminário.
2 - Respeito a morte assim como a vida e, por este motivo ocupo o dia de hoje para ler, estudar e uma ou duas horas para visitar alguns amigos (vivos), os que morreram eu visito todos os dias ao por em prática as coisas boas que me ensinaram.
Mas não posso negar que, independentemente das reais motivações para tal feriado, é válida uma reflexão sobre a existência ao que concluo: A vida é uma poesia em construção. A morte? A morte foi apenas um verso que não rimou...Vale lembrar:Todos vamos errar um dia!!!
Desculpem importuná-lo com minhas pilhérias, mas acho tudo isso assim...tão simples...

Abraço!!

Sidinei

26.10.06

AMORES E ROSAS

Amores e rosas


3 dúzia de rosas
para 3 dezenas de amores.
Como é bom o desejo
Realizado no seio destas flores.
Todas belas e macias,
Amantes, amadas,
Cada qual em seu momento.
Todo meu amor cada uma sente,
Quando com cada uma me deito.

23.10.06

MORALISTAS E PROFANOS

Moralistas e profanos

Não me assombra
O mundo “imundo” dos mundanos.
O que me assusta
São aqueles humanos
Que se escondem sob a carapuça
Da moral,
Mas agem de forma tal,
Sempre sorrateiros,
E causando mal ainda maior
Que o suposto mal causado por aqueles primeiros.

BIBLIOFILIAS E BIBLIOFOBIAS

Bibliofilias e Bibliofobias
Sidinei Cruz Sobrinho[1]

Se você “enrugou” a testa ao ler as palavras acima, certamente não sofre de bibliofilia. Ao contrário, pode significar um sério sintoma de bibliofobia.
Possivelmente este foi um dos testes mais rápidos a que você respondeu na sua vida. E nem foram necessárias muitas perguntas seguidas de um sistema de pontuações ou de um divã para se chegar a tal conclusão. Aliás, se fôssemos bibliófilos convictos, não precisaríamos de tantas outras coisas que estraçalham nosso pobre dinheiro para nos dizer coisas tão óbvias. Mas este é o problema: bibliofobia causa cegueira.
Um bordão sobre a leitura é corretíssimo: “Quem lê, viaja!”. Nunca usei drogas pesadas, mas se está correto que o momento de prazer que elas causam é, como dizem, “irado”, vocês precisam ser bibliófilos, isso equivale a ter múltiplos orgasmos múltiplos. Se um orgasmo sexual é bom, um orgasmo intelectual é igual ou ainda melhor. A grande vantagem é que o acesso à vida intelectual, ao contrário das drogas, é uma viagem de ida e volta. Ele te leva para além da realidade e quando você volta consegue compreender a realidade na qual você estava, mas até então, cego e sem autonomia. Por este motivo quando numa sala de aula ou numa conversa com amigos você faz um raciocínio que transcende a realidade para compreender a própria realidade, ouve-se o inevitável: “Viajou!” ou então: “Você tá no mundo da lua cara!”. E você está mesmo. Já viu fotografias da Terra vista da Lua? Quer imagem mais contagiante?
Mas os pobres interlocutores sofrem de bibliofobia e não aceitam o único tratamento disponível, que por sinal, só tem efeitos se auto-aplicado: Primeira dosagem; leitura elevada à milionésima potência, todos os dias ao menos durante uma hora para iniciantes com aumento gradual de dosagem. Segunda dosagem: após a leitura, receita-se um bom diálogo com bibliófilos iniciais e avançados. Sempre, logo a seguir desta dosagem, repetir a primeira para que a segunda, da próxima vez, seja mais intensa e produtiva.
Seguir a receita acima nem sempre leva ao estado de relaxamento que você sente após o sexo. Mas certamente leva ao orgasmo que, como o sexual, exige a delicadeza, a minuciosidade e a persistência de um artesão e de um poeta. Se você não conseguiu estabelecer a analogia proposta é um bibliófobo de carteirinha ou nunca teve um orgasmo ou então está usando muita droga.
Se você recorreu ao dicionário para compreender as duas palavras do título, primeiramente: Parabéns! Já começou seu tratamento. Se mesmo recorrendo ao velho “pai dos burros”, não compreendeu bulhufas; por favor, se dirija a palavra “metáfora”. Se mesmo assim as palavras: “Viajou na maionese” persistem em sair de teus lábios; não tem problema. Este foi apenas um tesão literário que senti para brincar com algumas palavras. Ao contrário do que muitos pensam, o mundo da leitura e dos estudos pode ser bem humorado sem que, por isso, se torne uma piada. E como nunca se pode experimentar a dor ou a alegria de alguém para saber o que realmente ela sente, vá continuar seu tratamento. Com certeza encontrará algo bem mais interessante, compreenderá porque o óbvio às vezes parecia tão obscuro e terá argumentos para o diálogo.
Se você leu até aqui, mesmo que seja para dizer que tudo o que eu disse não é importante, irá precisar daquilo que eu disse para me dizer isso.

[1] Professor FAPLAN. Mestre PUCRS sidinei@faplan.edu.br

DESEJOS SECRETOS

Desejos secretos


Sinta o calor do meu sopro, jovem mulher, é o fogo que queima minha alma, no fogo da tua paixão e o eterno sofrimento do meu amar. Choro. Reclamo. Grito e amo, tudo faz um apaixonado, um bobo que assim fica ao te olhar. Desejo tocar a epiderme que te cobre a alma, e penetrar nos mais íntimos dos teus segredos e em segredos íntimos te amar.
Lembro dos sonhos e da realidade que vivi ao teu lado. Sem tocar seus cabelos soltos, somente a imaginar um beijo naqueles que hão de amamentar a prole. E tecer contigo noites de amor, no luar ou na aurora. Não escolhe lugar o que ama. Não ama o que escolhe a amada. A volúpia coordena meus passos, meus braços e todos os membros que anseio confundir-se no trânsito da excitação. Dividindo o mesmo chão com seu corpo nu, suave e doce. Tentado a mim trouxe, esta obra de Vênus, fruto do amor.
Vinde jovem pequena, quero tragar teu sopro, teu beijo, teu corpo, tua alma. Quero te amar. Se não vindes, estarei morto, porco, sem calma... Não sabes o que é o gozo, mesmo que mil gozos tenha sentido. Não sabes o que é um homem, mesmo que de um homem tenha vindo. Em meu corpo sentirás um deus, em meus lábios o éter, no meu gozo, o gozo do teu prazer e no prazer o desejo de mais uma vez.
Irás suar em meus braços, gritar, gemer... Farás tudo o que desejas, e te farei tudo o que jamais imaginou. Seremos chama, vento, tempestade, vulcão. Silêncio, marcha, tentação. Faremos muitas vezes o ritual, a dança, a translação.
Deitarás por fim,, ao meu lado, e não sonharás com nada, porque tudo já aconteceu. Dormirás como uma pétala sobre o calmo lago e se deixará levar pela emoção.
Velarei teu sono. Banharei teu corpo em silenciosos beijos. Vigiarei teu pulsar. Até que acordes sob o pulso do meu coração. Iniciaremos, outros passos, novos caminhos... o limite é a paixão.

LÁGRIMAS DE FERRO

Lágrimas de ferro

por Sidinei Cruz Sobrinho[1]

O menino corre sorrateiro,
Entre as lâminas paralelas.
Seu pai, papeleiro,
Recolhe o lixo da cidadela.
Sua mãe, suja e mal vestida,
Pede comida na casa das donzelas.
Sua irmã, prostituta, drogada,
Saiu na fria madrugada...
Ainda não voltou pra casa.
Sua casa?
É a mesma casa dos seus dois tios,
Um cunhado, dois “meio-irmãos”, o avô,
E um primo soldado.
Soldado do crime organizado,
Que luta contra o Estado e a democracia que os excluiu.
Sua casa tem três metros quadrados.
Um lado é de lona preta e gelada;
Tão gelada quanto a alma da mulher donzela
Que lhe negou uns centavos para o pão.
O outro lado da casa é de papelão.
Aquela casa não é engraçada;
Não tem nada,
Mas alguém mora ali.
Mora o menino que corre sorrateiro,
Entre as lâminas paralelas.
Morava sua irmã, que na madrugada
Foi estuprada e aos pedaços, no trilho encontrada.
Morava seu pai, que puxava o carinho de papel
Como um animal selvagem;
Teve fome, comprou cachaça;
Soube do ocorrido;
Preferiu não ter nascido, foi embora...
Tornou-se mais um soldado,
Foi lutar contra o Estado.
Naquela casa, morava sua mãe,
Que voltou da cidadela, sem saber
O que a esperava.
O menino corre sorrateiro,
Entre as lâminas paralelas.
Sua mãe ouve o apito
Do algoz maldito que se aproxima.
O medo lhe cala o grito.
O menino brinca; não ouve,
Apenas sente a batida do martelo
Que se move sobre as lâminas de ferro.
De ferro foi a vida.
De ferro seu trilhar.
Pelas lâminas de ferro,
Separado da cidade bonita.
A cidade que não grita
Porque de ferro são seus olhos.
Olhar que não quer ver
A mãe jogada, aos prantos,
Nos “entrecantos” da cidadela,
Segurando do filho os pequenos chinelos,
Banhados em lágrimas,
Lágrimas de ferro.


Na capital das farmácias e das construções “pós-modernas”, há décadas foi gerado um menino feio e problemático chamado Beira Trilhos. Esse “Corcunda de Passo Fundo” foi escondido e ignorado pelos inefáveis defensores da tradição e de um populacho inculto e ludibriado pela política do pão e do circo. Enquanto são gastos milhões em obras faraônicas, (tão faraônicas que antes mesmo de serem inauguradas apresentam problemas como se já existissem há milênios sem restauração alguma) e se discute a construção de um autódromo, tão necessário para esnobar o poder de alguns coronéis, o Corcunda passofundense traduz o escárnio de nossa pequena burguesia provinciana.
Há várias pessoas procurando formas para ajudar o menino feio a superar sua fobia social. Fobia essa que se canaliza em atos de violência urbana e condições de vida subumanas.
O que fazer?
A solução vai além de campanhas de agasalho ou meia dúzia de beatas distribuindo pães aos excluídos que nós mesmos excluímos. Talvez para termos como merecer o céu. O céu não importa agora. O que importa é que milhares de pessoas vivem os infernos bem ao nosso lado e o diabo quer tirá-las de lá e jogá-las em outro canto qualquer. Os assistentes de direção desse inferno todos sabem como e onde poderiam estabelecê-las, mas como a preguiça só pode ser mesmo coisa do diabo, eles não movem uma palha pra isso. Até porque se o fizerem de qualquer forma, vão apenas transferir o problema de lugar e o que se pretende é resolver o problema.
Eureka!!!!!!!
Eis a solução! Na próxima jornada da literatura, vou convidar o menino, que agora já é bisavô, e toda a sua família para embarcar no primeiro trem. O que não vai ser difícil, uma vez que o trem passa por cima de alguns deles quase todos os dias. Vamos subir todos e vamos embora pra Passargada, porque aqui nós não somos amigos do rei.

[1] Filósofo, Mestre em Filosofia Política, PUC/RS, Especialista em Direitos Humanos; Professor FAPLAN.