7.3.13

Benditas mulheres

Benditas sejais vós que sois mulheres.
Mulheres de almas plenas que ensinam amar.
A mulher que habita a alma
é força que traz a calma
é ventre em estrelas a brilhar .

Feliz dia das Mulheres que todos os dias fazem felizes até mesmo os dias mais tristes.

17.2.13

Pronome de tratamento


Quem, um dia iria dizer,
que o rebuscado: "Vossa Mercê",
transformar-se-ia, ao amanhecer,
na beleza simples que é: "Você".

Amo

Amo porque sou poeta. Amo porque a boemia discreta me empresta o brilho dos dias e a companhia das noites. Amo porque o amor é breve. Amo porque a vida é leve mesmo quando pesada pelos anos de ausência. Amo pelo amar. Amo meu filho. Amo o brilho das joias lindas iluminadas pela beleza da joia mulher. Amo porque amar é amplo. Amo porque me encanto com as inúmeras possibilidades do amor. Amo as pedras que ensinam o silêncio e a resistência. Amo os guerreiros que enfrentam com força e paciência. Amo os fortes porque vencem. Amo os fracos porque sem eles não haveria força alguma. Amo o pavão e suas plumas, uma galinha em flor. Amo porque não sei dizer o que é amor. Amo porque amar é presença que se revela na ausência. Amo, porque amo e quando me engano amo me corrigir. Amo porque amar é saber chegar, é saber partir.
(Sidinei Cruz Sobrinho. Santa Maria - RS, 17 de fev 2013.)

30.1.13

A função pedagógica da tragédia. Uma triste, mas necessária reflexão.



Inquestionável a dor. Inevitável o luto. Indubitável o temor. Instintiva a compaixão. A tragédia bagunça a alma.
Os gritos ecoam silenciosamente pelas ruas. O medo se banha no luar e acorda, ao amanhecer, refletido pelo sol nos olhares perdidos no horizonte cinzento. É estranho se reconhecer no outro nunca conhecido. Dói viver diante da dor de morrer. Um suicídio lento jamais concretizado. Passado, presente e futuro paralisados. Medo, compaixão, raiva, saudade, amor, responsabilidade, tormento. Necessária a purificação dos sentimentos.
Os antigos gregos usavam a tragédia como forma de reflexão social. Para o filósofo Aristóteles, a função da tragédia é de, por meio do temor e da compaixão, purificar os sentimentos. A catarse (termo hoje amplamente utilizado pela medicina e a psicologia) deveria purificar as almas por meio de uma intensa liberação emocional provocada pelo drama. É a partir das tragédias que se desenvolveu a filosofia socrático-platônica e, com ela o conceito de alma (psiché). De acordo com esse pensamento o homem só pode conhecer o mundo quando conhece a si próprio. “Conhece-te a ti mesmo.”
Na peça, “Antígona”, Sófocles, narra o drama de Antígona cujo irmão está morto e foi proibido pelo rei Creonte de ser enterrado. Caso ela não enterre seu próprio irmão, não lhe concederá o culto religioso que completará o ciclo da vida. Esse seria um erro terrível para com sua família. Se Antígona enterrá-lo, cometerá um crime contra a cidade (Estado) visto que o rei proibiu que qualquer um o enterrasse.

Milênios depois de “Antígona”, vivemos drama semelhante na tragédia que levou ao chão mórbido, centenas de irmãos mortos. O mesmo conflito entre o indivíduo, as famílias e as leis do Estado. Por que permitimos isso se a lição já havia sido ensinada? Sim, somos todos culpados. Por ação ou omissão somos culpados. Tanto a indignação que sentimos em relação aos que agiram de forma negligente quanto a compaixão que sentimos pelas vítimas e familiares, comprovam a culpa coletiva. Precisamos purificar os sentimentos. De forma dolorosa a catarse se faz necessária. Não se trata de expiar a culpa com duras penas. Trata-se do conhecer a si mesmo diante da tragédia. A função pedagógica da tragédia nos leva à triste, mas necessária reflexão sobre a parcela de culpa que temos por não tê-la evitado.
Inquestionável a responsabilidade dos (des) organizadores e “profissionais” que não tomaram as providências necessárias para garantir o direito ao lazer com segurança e proteção à vida. Inquestionável a responsabilidade do Estado que cria leis, mas não fiscaliza com seriedade. “As leis não bastam, porque os lírios do campo não nascem das leis”, é preciso cultivá-los além de querê-los. Inquestionável a nossa responsabilidade que, frequentando inúmeros ambientes como o deste triste cenário, vemos as irregularidades e não as denunciamos ou não nos recusamos a frequentá-los. Peca-se por ação. Peca-se por omissão.
Minha alma está uma bagunça. Choro a dor da humanidade perdida. Choro minha dignidade ferida pela ausência da reflexão, pela ausência da prevenção. Conheci um pouco mais de mim mesmo. Lição pedagógica que dói a alma. Preferia a palmatória. Choro como Antígona diante do irmão morto sem o direito de dar-lhe descanso a alma por causa da lei do Rei. Choro porque no Estado Democrático o povo é autor e destinatário das leis, portanto por elas responsável e diante de cada tragédia que se repete, comprovamos nossa incapacidade de governar. Que essa purificação dos sentimentos seja arrefecida por dias mais claros. Que o grito silencioso dos mortos pelas ruas da cidade que me acolhe jamais silencie minha voz diante da injustiça eminente. A tragédia é uma lição pesada demais para se repetir no próximo ano.

Sidinei Cruz Sobrinho.
In memoriam às mais de 230 vítimas de Santa Maria.
Janeiro triste de 2013.

2.1.13

Colibri


Tens o brilho de luar intenso,
Jeito de carinho imenso
Que não caberia no universo.
És tão linda que beleza igual
Poeta algum diria em prosa e verso

Noite fria sem estrelas.
Eu perdido em pensamentos,
Por segundos, horas e a todos os momentos,
Pensando naquela de sorriso brando e quente,
Parece distante e ao mesmo tempo tão presente,
Que seria capaz de ficar doente
Para em seu lugar sofrer

Bela que aos deuses encanta,
Sorri porque é pura como a flor branca,
Sorri, porque minha tristeza espanta
Traz de volta minha alma de poeta esquecido,
Me deixa aqui perdido em tua lembrança.

Sorri porque tem olhar do mar aberto,
Porque tem todos os anjos por perto
E faz os cabelos balançar ao vento,
Sorri porque é, desde que a conheci,
o sorriso mais certo, meu colibri, meu pensamento.

27.12.12

Devaneio na solidão


Cansado ou não.
Às vezes frustrado outras vezes entusiasmado.
A Eudaimonia se revela de forma estranha.
Ao invés de explodir no ápice ou includir no declínio, a verdade humana se revela e revela os homens na sua própria humanidade.
Assim, não importa como a felicidade contagia os outros ou não.
Importa, sim, uma garrafa de vinho ou um bom espumante,
um tabaco escocês manhosamente ajeitado no fornilho do cachimbo,
um livro da mais fina literatura sobre o colo,
Toquinho e Vinícius "choramingando" uma Bossa Nova, bem baixinho e
toda essa infinita e pesada leveza da alma que transborda a existência poética....

24.12.12

De volta à infância

Gosto desses dias nos quais a alma fica inquieta e a nostalgia faz rebuliço no coração. Gosto da saudade da infância e do cheiro de bergamotas amarelas que enfeitam a frieza dos trilhos do trem.
Gosto de ver o rio abraçando os morros.
Gosto dos pareirais cubrindo os montes num tapete verdejante.
Gosto de ver a nona mexendo a polenta na grande panela sobre o fogão à lenha e o nono bebericando mais um copo de vinho.
Gosto de me sentir de volta, no ninho onde nasci revivendo coisas que só uma vez vivi. Gosto de gostar de tudo isso e de me estranhar no reencontro comigo mesmo....

11.12.12

querer...

eu queria querer você todo o dia.
que queria te enfeitar de alegria.
eu queria ser as estrelas do céu
e iluminar teus caminhos, teu vestido e teu véu.
queria querer você sem medo algum.
queria ser vento, tempestade e paixão...
queria ser teu homem, teu nobre, teu escravo teu sim e teu não.
eu queria roubar flores no jardim
pra enfeitar teus cabelos, teus seios e teu chapéu.
queria ser teu soldado e teu general
para te proteger de todo mal.
queria ser teu bem teu além e teu ser.
queria ser o teu desejo, teu beijo e teu encanto.
queria ser muito mais que um poeta e um canto.
eu queria querer você todo dia,
queria ser tua música tua melodia
cantando em tuas noites as notas do infinito.
queria você aqui perto de mim.
queria ser o futuro e não o passado,
ser teu presente e teu eterno namorado.
eu queria querer e poder tudo o que quero.
enquanto não posso ainda te espero...

6.12.12

DESENCONTROS


Quando os dias se encontram provocando o desencontro com o dia anterior, a alma chora. Luto silencioso...

- Cabe a quem julgar o descabido?

- De onde venho e para onde tenho ido?

A memória se perde na criação. O dia encontra, na mesma noite, o início e o fim da despedida. Morte que chora reencontrando a vida.

Às vezes, mas somente às vezes, me dou esse direito prazeroso mesmo com o risco do efeito delituoso.

Entre o devaneio que aquieta a mente e a demência, um lapso de sentido.

- Perdido?

- Talvez.

- Mas quem se encontra em meio a tantos desencontros esquecidos?

2.12.12

Culpa dos teus olhos...

Ouço ao longe tua voz que me fala de coisas cotidianas, coisas humanas e coisas irreais, coisas que eu não posso ouvir, estou embriagado pela luz do teu olhar. Fico assim, mergulhado nesta imensidão desconhecida, instigante, sedutora.

Dispo minha alma sem pudor, ficando livre para teus olhos penetrarem no meu ser, agora não ouço mais nada que venha da tua voz, permaneço assim, perdido no desejo de encontrar-te e na necessidade de te querer.

Meus lábios buscam inconscientes pelos teus lábios que se movem numa dança sedutora deixando fluir as palavras que tanto queres que eu ouça, meus olhos estão imersos na impetuosidade do teu olhar.

Num pequeno instante de lucidez envergonho-me da cobiça e fujo dos teus olhos, fixando meu pensar nas palavras que agora gritam nos meus ouvidos, e tento associá-las a qualquer coisa que me seja útil para desviar-me de você.

Não obtenho êxito algum em tentar me manter indiferente diante de você, é insano te querer, mas agora já não adianta mais pensar assim, percebo-me novamente embriagado pelo teu olhar, que me seduz diabolicamente.

Desisto da luta que se travou entre meus anseios e aquilo que trago na bagagem moralista que me foi designada, já não me importo com nada, apenas com tua voz suave e teus braços angelicais que me enlaçam num abraço derradeiro.

26.10.12

MEDO CEGO


Ao findar a sexta-feira, os dias “úteis” foram encestados numa cesta feia aguardando serem lembrados talvez no final da tarde de domingo. Uma dose de uísque caia e sai do copo após outra. O conforto do lar guardava aquela solidão gostosa que só a coragem de saber estar só sem ser sozinho possibilita aos mortais. A poesia foi inevitável e a vida comum e normal dos felizes normais trafegava lá fora. O homem sozinho pensava, perdido em seus devaneios, em que pensavam os que passavam e se sabiam para onde corriam.
Num impulso de inteligência, paixão ou loucura, ele foi até a rua e interrogou, de súbito uma linda mulher:
- “Por que seu medo de viver agora mesmo aquilo que mais deseja?”
- “Para não correr o risco de perder.” Respondeu ela após se recuperar do espanto.
O homem fitou o olhar naquela linda jovem. Voltou para a solidão da sua própria companhia. Admirou a cesta feia, fechada com sexta-feira. Serviu outra dose e conclui que aquela mulher, porque vivia sempre com medo de "perder o chão", aprenderia, no final, que jamais tocou chão algum.



12.10.12

Canção do Amor

Vou cantar uma nova canção,
Descobertas de um novo amor,
E resgatar a velha emoção,
Desabrochada na velha e sábia flor.

Nos versos que cantam o amanhecer,
Na relva, na noite ou na fé...
Perceber a beleza do pulcro saber,
E deixar o coração ser o que é.

Vou sonhar um novo sonho,
Foragido em cada adormecer.
E chorar escaldantes lágrimas,
Lágrimas de meu sofrer.

Mas sei que hei de encontrar
No céu, sonho e canção salutar,
A fulgurante vida que busco,
Para toda a vida te amar

Pensamentos de uma noite sem você.


Vou deitar-me...
E se o sopro da vida faltar-me,
Quero meu corpo envolto em chamas,
Para que no pó do qual vim
Possa deitar-me novamente.
Minh’alma então, nas asas do vento,
Irá ferir os céus e o tempo.
Por fim hei de adormecer, da deusa que amo
Eterno ser os seus pensamentos.
Minha lembrança não tardará a esgotar-se
E homens virão que a poesia irá louvar.
Mas o amor, digno único de adoração,
Aos braços da virgem amada está a me levar.
Passarão os dias e as noites,
E um pobre a outro ainda cantará,
Ébrio em sua solidão,
As mesmas tristezas do meu cantar.
Virgem que o amor me ensinou,
Vênus que a aurora me trouxe,
Só vós lembrareis do amor,
Que em versos meu amor tornou-se.

Livre amor

Os conselheiros do amor
Não devem ser ouvidos.
Códigos e posições do prazer,
Deverão ser banidos.
Não há regra.
Não há método
A ser seguido.
Apenas amamos
E ao amor nos entregamos.
Se desejarmos na vida,
Algum livre amor ter vivido

Amiga Rosa.



Olá querida rosa!
Como hoje estás?
Tive um sonho,
Triste sonho,
Sonhei não vê-la mais.

Acredito cara amiga,
Que de abandonar-me,
Coragem não terias.
Mas lhe proponho um acordo,
Para unir nossas vidas:

Se nos dias que passam,
Um malvado dia passar,
E num covarde abraço,
Quiser nos separar;

marcaremos no céu uma estrela,
a que mais crepitante brilhar.
E no fim desta derradeira vida,
Iremos lá nos encontrar.

Não percas portanto,
A beleza que conténs.
Não tema-lhe o pranto
Que nos unirá no além.

Pois ao chegar o momento,
Da nossa eterna união.
No céu brilharemos,
Quais estrelas na escuridão

Num Jardim De Silêncio.



Hoje preferi apenas calar.
Num primeiro momento,
Não vi nada de diferente,
Tudo seguia seu ritmo,
Como se eu nem tivesse parado para ouvir,
Como se eu não estivesse ali.
Mas pouco há pouco pude ir mais longe,
E meus olhos desabrocharam a uma nova realidade,
Como um lírio que desabrocha saudoso
Em meio ao vasto campo.
Assim também abriram meus lábios
E neles, um sorriso brando.
Um pássaro cantava em uma harmonia transfigurante,
Nas flores que se confundiam com os raios do sol,
Nas verdes ramagens sobre o chão,
Em todo e qualquer lugar,
Descobri o amor que eu jamais encontrara.
Pela primeira vez, senti algo que não era dor,
Nem simples paixão.
Penso que seja amor,
Pois me fez chorar.
De modo algum eu podia acreditar
Que por tão longo tempo eu...
Eu simplesmente deixei a vida passar.
Então perguntei-me:
Como pode ó Deus!?
Toda esta gente que vai e que vem,
Não ter ainda percebido a realidade,
De um cálido amor que as tem?
Minha voz parecia ter se perdido
No longínquo céu azul.
E novamente as lágrimas banharam minha face.
É difícil dizer à alguém
o universo que ela possui.
Mais difícil, porém, é perceber nossa pequenez
Frente a tão imenso e misterioso mundo.
A maior covardia de um homem,
É dizer que nunca chorou,
A maior desgraça de uma vida, é morrer
e não saber se realmente amou.
Sinceramente, é difícil crer.
Que no mais secreto esconderijo do nosso coração,
Possa haver este florido jardim.
É impossível dizer
A inefável beleza que há em ti,
Esta beleza sem fim.

Flores .


Eu não sabia das flores,
Lindas flores que alegram
As flores já tristes.
Devagar, descobri, senti e chorei;
Ao saber que tão belas flores,
Foram flores que semeei.
Mas já havia pensado nas flores,
Como as rosas, gerânios e jasmins,
A violeta e a tulipa, as camélias....
Meu Deus!
São as flores que deixam a vida assim...
Tão belas misteriosas...
Passo a passo...
Primeiro botão, depois rosas.
E a rosa que morre por outras rosas,
E as flores que choram por flores novas,
E talvez lá no céu...
Não. No céu não há mais flores.
Nem amores,
Nem cores e jardins.
No céu só restam alguns anjos,
Estão chorando e olhando pra mim.
Porque do céu as flores estão sumindo
Para pouco a pouco florir teu coração.
Voltemos a florir o céu,
Para que o céu seja assim:
Serei para ti uma flor,
E serás uma flor para mim.
Semearemos então mil amores,
Entre anjos e querubins,
E no céu seremos flores,
Duas flores,
No mesmo jardim.

A Angústia De Amar.


Pobres homens poetas,
Que pensam a felicidade encontrar.
Perdem-se com frequências certas,
Na ansiedade de amar.

Hoje feliz. Amanhã...
Amanhã choras porém.
Onde estás Deus, Satã,
Ou a vida que tens?

Cansado de lutar
Entrega-se ao destino louco.
Humilhado por amar,
Alma viva, corpo morto.

Por pensar muito na vida,
Esqueceram de viver.
Por Ter a alma ferida,
Esqueceram de morrer.

Mas neste mundo que vivem,
Distante apaixonados;
Contemplam sozinho em seus leitos
O amor que há muito tem sonhado.

Noite.


Vejo a noite lá fora,
Que calma embala os sonhos meus.
Ouço o ruir das estrelas,
Brilhantes quais olhos teus.
Não compreendi...
Porque vi, porque ouvi,
O silêncio da relva
Espreitando o amanhecer.
Talvez haja um Deus distante,
Que à noite canta, sereno aos anjos seus.
Queiram, ó anjos fulgurantes,
Embalar os sonhos de minha deusa,
Deusa dos sonhos meus.
Meus olhos já pendem ao sono,
E vejo ainda a noite lá fora,
Distanciam-se de mim as estrelas,
Adormeço em meu sonhar.
Perde-se então minh’alma na noite,
Na noite em que parei para amar

A árvore Dos Sentimentos



O amor é a árvore dos sentimentos,
Cujos ramos são distintos e confusos,
Nascem juntos, mas separam-se,
Entre os frutos da alegria
e a flor das paixões.
Poderá estar na folha tristeza,
Se já não secou
Na colheita de um novo sentimento.
Este não pode ser o orgulho,
Nem mesmo a inveja.
Mas haverá sempre uma saudade
E uma solidão a brotar amargamente.
O melhor cultivo para sua árvore,
É a seiva do sincero amor,
Que encontra em você mesmo,
No mais íntimo,
Recompensa por superar a dor.

Hoje é sábado


Hoje é sábado. Sábado à noite. É dia de vários rituais. Qualquer reles mortal sabe o que acontece nos sábados. Nada de extraordinário, pois acontece todos os sábados. Mesmo assim é sábado e tem mania de se fazer diferente. É dia de mercado. Dia de feira, pra quem acorda cedinho e não pode ir na quarta-feira. Dia de família, pra quem tem família ou vontade de ter família pra quem nunca teve uma ou ainda não aprendeu a ter. Dia de passeio, de fazer compras pra quem tem dinheiro a gastar ou só olhar e sentir vontade, quem não tem dinheiro algum.
Mas agora é sábado à noite e tudo o que já foi durante o dia nem importa, já virou sábado passado. Sábado a noite é dia pizza. Dia de missa pra quem tem medo do inferno. É verão, mas parece inverno. Não importa, é sábado e ele pode ser como quiser. É noite de balada, festa agitada pra “caçar” mulher. Ou ficar em casa, sozinho como estou se mais nada disso se quer.
“Porque hoje é sábado”, já cantou Vinicius de Moraes. Há se todo mundo fosse assim como você, poetinha vagabundo que dá gosto de se ver. Hoje é sábado e tudo o que é possível, é possível ser. Hoje é sábado. Estou só. Mas não sei se isso é alegre ou triste. Sei que a tristeza existe principalmente porque hoje é sábado e não sei o que quero ser.
Esse é meu ritual, porque hoje é sábado e me permito sonhar. Hoje é sábado e não posso amar, porque meu amor está distante. E se hoje é sábado amanha talvez seja outro domingo qualquer. Domingo não tem graça. Tem só acordar tarde e chimarrão na praça. Domingo tem preocupação de segunda-feira, já virou dia normal, sem ritual.
Antes que me esqueça, ainda é sábado. Talvez eu não perceba, mas não importa o que eu beba, hoje é sábado. Sábado à noite e já vou dormir. Deixarei o mundo com o seu dia preferido. Qual o sentido? Hoje é sábado e não faz sentido algum. Só mais um dia comum. Dá pra se perceber. Vou tomar outra dose de uísque, fumar mais um cigarro até a fumaça me consumir.
Hoje é sábado. Sábado à noite. Como açoite, a solidão está a me ferir. Hoje é sábado, estou depressivo, solitário, moribundo. Porque hoje é sábado vou me esquecer do resto do mundo e vou cair. Talvez esta seja minha sorte e porque hoje é sábado nem sequer mereço a morte, então vou apenas deitar e dormir. Por que hoje é sábado. Sábado à noite. É dia de vários rituais. Qualquer pobre mortal sabe que estou bem longe de me juntar aos demais. E tudo isso, sem compromisso, apenas porque hoje é sábado e no sábado há muito reboliço.

ESPELHO


A realidade me comove mais que julgas e me preocupo com o ser humano de tal forma que sofro há anos com isso. Não sou e nunca tive a intenção de ser perfeito. Apenas busquei a felicidade. Considero que viver poderia ser bem mais fácil do que a maioria das pessoas pensa ser. Sei perfeitamente que há situações que nem uma teoria ou minha pobre filosofia são capazes de explicar e que nos resta apenas vivê-las, seja uma grande dor ou um amor intenso.
Li inúmeros livros na minha curta vida. Mas isso não me fez mais inteligente ou me possibilitou, necessariamente, ter a razão sobre minhas compreensões. Comecei a ler como fuga da minha solidão. Por anos um livro tem sido sempre meu melhor amigo e o único que houve o grito confuso da minha alma. A conclusão que tirei deles é que não se julga a inteligência de um homem pela quantidade de livros que lê, mas pela sua capacidade de ler o mundo. Muito embora seja necessário ler muitos e bons livros antes de se ariscar ler a realidade. Do contrário se cai na trágica fantasia e nas repetidas medíocres opiniões.
Quando era ainda criança, nove anos de idade, e trabalhava de "bóia-fria" nas lavouras e meus pais me "educavam" severamente, sempre me sentia um inútil. Aos poucos comecei a ganhar coragem para compreender algumas coisas no mundo. Depois, mesmo temendo os resultados comecei a formular algumas opiniões pessoais sobre o Mundo, o Homem, e Deus. A partir de então não mais sofri a solidão e a exclusão humana que me tornava invisível entre milhares de espectros humanos que mal sobrevivem. Mas, por outro lado, comecei a ganhar visibilidade e com isso inimigos e tenazes críticos ao meu modo de ser.
Começou a me incomodar a capacidade que algumas pessoas têm de julgar e não tolerar as diferenças. Lembro John Lennon que dizia: "As pessoas precisam se trancar entre quatro paredes para fazer amor enquanto muitos se matam a céu aberto". Como podemos ficar julgando os pequenos prazeres individuais se esquecemos o vício da humanidade em excluir e desconsiderar as pessoas em sua dignidade? Talvez porque, no primeiro caso, julgamos os outros e se consideramos o segundo caso, a universalidade da ideia de dignidade humana, os juízos recaiam sobre nós mesmos, sem distinção.
Senti grande alegria quando, depois de muito esforço e estudo consegui um espaço na academia científica. Sou apaixonado pelo mundo do conhecimento e talvez nisso consista o meu maior erro e seja a causa dos meus maiores infortúnios.
Sempre considerei a faculdade como o espaço por excelência do diá-logo (como confronto de razões). Nesse lugar poderíamos questionar e (re)significar muitas coisas, não todas, mas coisas significativas para o bem da humanidade. Imaginei, na minha idiota filosofia, que poderia conversar com meus alunos e colegas sobre temas importantes, discutir ideias, rever meus próprios conceitos quando identificadas falhas através das sábias ponderações dos meus interlocutores. Quando entro em uma sala de aula imagino estar em um laboratório, onde as cobaias, sãos as ideias e os pesquisadores, cada um de nós alunos e professores, com experiências e pré-compreensões que, na roda do discurso, poderiam gerar conhecimento.
Um dia li em algum lugar uma frase de Einstein que dizia "não podemos nos desesperar dos homens porque nós mesmos somos homens". Essa frase me ajudou muito pois estava completamente angustiado com a existência (coisa comum na minha vida). Resgatei alguma esperança, maldita esperança da qual não podemos nos livrar, e voltei a repensar e questionar o mundo e suas circunstâncias, não em busca de uma resposta definitiva, mas de uma compreensão da definitiva busca por questões que realmente importem.
Percebi que algumas pessoas levaram a sério isso tanto colegas professores como alunos. E ficava feliz quando, mesmo não convencendo ninguém de que meu modo de ver as coisas são os melhores, ao menos isso servia de alavanca para o pensar reflexivo e crítico destas pessoas. Ou seja, não estou interessado que os outros ajam conforme minhas ações, mas que os outros saibam por que escolhem agir como agem. Defendo a autonomia e a liberdade.
Ultimamente alguns acontecimentos me fazem começar a confirmar o que já desconfiava há algum tempo. Ser autônomo e livre tem um preço muito alto, o preço da tolerância, o preço da alteridade. Significa ter a capacidade de compreender o outro e de pensar apenas o que interessa a todos e não apenas a um indivíduo ou a uma pequena e conservadora cultura. O preço maior disso tudo pode ser a execração da sociedade por se ter uma compreensão diferenciada do que é bom, belo e justo conforme a época atual. Talvez isso explique o que aconteceu com Nietzsche, Sartre, Luter King, Gandhi, Jesus Cristo, Sócrates, Darcy Ribeiro, os intelectuais da época da ditadura (e por falar nisso, ela acabou mesmo?).
Minhas últimas conclusões se direcionam para o fato de não se poder pensar a vida e suas surpresas com todos e em todos os espaços da academia. Nem todas as pessoas servem para isso. O que não quer dizer que não sejam completamente úteis para outras coisas. Como poderia eu estar aqui escrevendo se um operário do campo não suasse forçado para ceifar a terra e possibilitar meu alimento? O que quero dizer é que algumas pessoas estão fora de foco, fora do espaço para o qual realmente tem competências e habilidades para agir com utilidade ao mundo. Sendo assim, em muitos casos devo apreender a calar e a dissimular, caso eu ainda veja algum sentido em me manter no rol dos homens de ciência acadêmica atual. Do contrário, a não ser que realize uma revolução de impacto, voltarei à invisibilidade. Esta última opção certamente me trará maior tranquilidade ao corpo e me esquivarei dos dissabores dos medíocres, mas não mais me trará a paz na mente como tem aquele que sempre esteve na ignorância.
Esse é um dos grandes problemas disso tudo, uma vez que se reflete sobre certas coisas, não há mais como se livrar desse fantasma. Pensar é algo difícil de conseguir e impossível de deixar.
Outra coisa que me espanta é que um grande número de pessoas é desprovido de qualquer reflexão. Forma-se o chamado inconsciente coletivo que muda de um paradigma falacioso ao outro como rebanho levado pelo instinto. Pior que isso, é o fato de serem aqueles indivíduos que menos pensam a vida, que mais são individualistas e egocêntricos, os que estabelecem juízos de valor sobre questões mínimas ou ainda divergem completamente sua leitura do fato, pautados em moralismos vazios. Sinceramente, não consigo compreender como que, frente à tragédia do aquecimento global, a violência civil quase que institucionalizada, a miséria humana que pede pão ou coleta papel na lixeira da nossa casa, diante de tudo isso, alguns pessoas ainda considerem significante passar horas julgando a filha da vizinha que mudou três vezes de namorado em um mês. Onde está a racionalidade? É caos que se mostra? É Kronos, o tempo, devorando seus filhos? Ou é a imbecilidade e a mediocridade humana que se revela?
Não quero que a beata deixe de ir à igreja todos os dias porque eu não vejo sentido nisso, nem que a ninfeta depravada deixe de passar noites de volúpia porque julgo que isso seja pecado e tenho medo da condenação divina. Gostaria apenas de um espaço para a tolerância. Que ocupássemos nossos tempos findos em agradáveis rodas de amigos ou em assíduas discussões sobre a vida em si. Quero a tolerância com os tolerantes e a justa pena aos intolerantes. Mas afinal. Até que ponto se deve tolerar os intolerantes?
Saberei que estamos realmente pensando a vida, não mais vendo grupos se unindo em defesa dos seus direitos, mas quando vir o diferente defendendo a diferença. Quando um negro defender as causas de um indígena, quando um tradicionalista "machista" defender o direito dos homossexuais, quando um homem fizer defesa ao espaço da mulher como igual, quando o jovem gritar em praça pública o direito dos idosos e quando aprendermos a ouvir antes de julgar.
O mistério humano me causa amor e pânico. Vivo em muitas situações o paradoxo do presente frente a inevitável vinda do futuro, que, por si mesmo, já refutou inúmeras teses morais. O que significava o divórcio há 20 anos atrás e hoje? Julgamos os homossexuais, mas nossas matrizes africanas e indígenas viviam a liberdade sexual como algo bom e espiritual. Há anos, como lembra Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, os jesuítas condenaram a antropofagia, mas ofereciam o corpo e o sangue de cristo na santa missa. Um pouco de visão ampla para além das barreiras de nossa cultura, nos mostra que há um multiculturalismo estranho e que questiona nossas verdades. Podemos até não concordar a agir como eles, mas precisamos tolerar, precisamos respeitar a Alteridade, o encontro com o "Outro".
Isso tudo me coloca na quase que inevitável tarefa de refrear parte do meu pensar e aceitar ao menos um pouco a submissão às regras do sistema atual. Continuar desenvolvendo minha filosofia me causará sérios problemas com a censura externa. O preço, como já falei, será auto. Por muitas vezes sinto disposição para pagá-lo. Mas, por outro lado há algo hoje que me impede disso: o meu filho que irá nascer e com a vinda dele essa minha inseparável mania de acreditar, como Rousseau, de que ainda podemos resgatar os resquícios de bondade da natureza humana.
Compreendi o sentido da filosofia com Hegel, quando esse afirmava: "Pensar a vida: eis a tarefa". Mas devo admitir que às vezes a tarefa é demasiado árdua. Se o velho Aristóteles tinha razão de que uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida, então não há como ser útil sem o espaço da razão que dialoga com a emoção e a condição humana. Desta forma, se não se pode pensar a vida, seja por incompetência pessoal ou por limites externos talvez seja melhor não mais fazer parte dela. Ou então persistir e pagar o preço a custa do sofrimento próprio e dos seus próximos.
Há pessoas com as quais esse diálogo ainda seja possível e sei que elas aceitarão ouvir e discutir a vida. Sou jovem, mas sinto nas costas um peso árduo do pensar filosófico. Não sei se consigo não pensar e considerar tudo simples ou indiferente. Os mais experientes na vida e nas surpresas humanas talvez possam me ajudar. Tenho medo. E o meu maior medo hoje, é o de não sentir medo.

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo, inverno de 2007.

Eu quero a razão

As lágrimas são a maior
estupidez humana.
o retrato da fraqueza
de quem não deve ser fraco.
A dor ou a alegria,
Ódio ou paixão,
Tudo revela este orvalho
Na face aberta,
Vinda da face oculta do escuro coração.
Não quero mais lágrimas
Nem risos nem seriedade.
Quero a verdade com o rosto que tiver.
Seja ela como for.
Quero a razão.
Para não perder o amor.

Você e Eu


Talvez algumas dúvidas,
Em teu coração eu deva por,
Teus pensamentos
Ao mistério expor...

Nada entenderá,
Do que eu disser,
Pois nada se ensina,
Sobre o amar uma mulher...

Basta olhar nas flores,
Tudo entenderá,
Não necessita de mil amores,
Para saber o que é amar.



Basta viver a vida,
E ordenar teus pensamentos,
para que na alma sintas,
a grandeza dos sentimentos

A essência da vida

A essência da vida
É preciso buscar,
Numa lágrima sentida,
O sentido de amar.
Em cada passo que damos,
Entre flores e espinhos,
Com firmeza possamos,
Mil caminhos seguir.
Sendo o céu o inferno,
Um único destino.
Não temas, ó menino,
De a vida viver.
Não necessitas de bonança,
Para aprender a amar.
Nas estrelas e na lua,
Não deixes de sonhar.
Podendo viver,
Ame como te amo,
E tudo pode mudar.
Coloca, pois,
na essência da tua vida,
o sentido de amar.

Quantas vezes

Quantas vezes estive ao teu lado...
E não me percebeu.
Quantas vezes pediu minha ajuda e ajudei...
Mas não parou para me agradecer.
Quantas vezes ofertei a minha vida...
E você a recebeu como algo qualquer.
Quantas vezes enxuguei teu pranto...
E você nunca sorriu pra mim...
Quantas vezes fui a causa de sua lágrima...
E não a compartilhou comigo.
Quantas vezes ofertei rosas...
Enquanto me feria com espinhos.
Quantas vezes exaltei seu clamor...
E nunca parou para me ouvir.
Quantas vezes me abandonou...
E eu permaneci ao teu lado.
Quantas vezes estava só...
E fui tua companhia.
Quantas vezes precisava de um amigo...
E eu fui sempre o primeiro a chegar.
Muitas foram as vezes que precisou de mim...
E eu jamais tive a coragem de te abandonar.
Muitas serão as vezes que irá precisar de mim...
E eu estarei lá;
Porque tenho a certeza que verá,
Que fui eu o teu mais fiel amigo...
E muitas serão as vezes,
Que irá me agradecer e me amar...

Um homem que chora

Os dias passaram depressa
E nada vi mudar,
Chegam os dias de festa
E continuo a chorar.

Choro por não ser amado,
Ou por não saber amar.
Sou apenas um despojado
Não mais sei o que é sonhar.

Correm lágrimas à noite,
E também ao amanhecer.
Sofro a dor do açoite,
Nada representa viver.

Sou ferido pelo pecado,
Que destrói e faz chorar,
Fui abandonado distante,
Por não saber o instante,
A hora de amar...

Desejo de um poeta


Quero viver e amar,
em teus olhos brilhar
qual chama fulgurante.
Neste amor alucinante
De alegrias sem fim.
Seja qual for a razão,
até mesmo se razão não existir,
quero viver esta paixão,
nesta paixão me consumir.
Como coroa de jasmins
Embelezar-te-ei em favos de mel,
Mesmo que a morte me leve,
A ti sempre amarei.
Não quero ser soberano,
Nem príncipe ou rei,
Somente viver e amar,
nesta luz de saber.
Mergulhar em seu corpo,
Qual orvalho no amanhecer,
Pois tudo o que mais quero
É amar e viver.

Morena

Eis a bela morena,
Que suave perfume exala,
Em sua pele serena,
Em seus braços me embala.

Tu me encantas e me fascina,
Teus olhos morena,
Minh’alma domina.

Nesta noite escura,
Vago a te procurar,
Nas flores, na lua,
Busco sempre teu olhar

Menina bela como flor,
Teus lábios são de mel,
Verdadeiro é teu amor.

Seus cabelos são leves,
Lisos quais pétalas de rosas,
Branca como dias de neve
É tua alma amorosa.

Com ramos de flores,
quero eu te ornar,
Dentre vários amores,
Só você quero amar.

Nos seu lábios este poema,
Sempre quero reler,
E em seus braços morena,
Amante, fiel morrer.

Decisões.

Tristes tormentos nesta vida
Que regem o corpo e a alma.
Em tua face dolorida,
Vejo lamentos e lágrima.

Era bela, tão bela quanto a flor,
Porém murchara ao raiar do sol
Não desfrutando do jovem moço o amor,
Embranqueceram-te os cabelos no arrebol.

Oh ingrata por que chora,
Se meu amor não pode agora gozar?
Já escolhi meu caminho de agora,
Pretendia, mas decidi não te amar.

Pelo inferno, da dor ao céu,
Também fui ingrato e pequei.
De teu júri me fez réu,
Somente em sonhos te amei.

Está já velha e lamenta,
Por querer quem não a quis.
É tarde e me fundamenta
Jovem moço vivo feliz

O BEIJO


Que textura agradável
É a seda deste ato
Que une o inefável do desejo
Ao fato.
É no beijo ardente
Que se percebe, da paixão as qualidades.
E no beijo suave,
O amor do coração.
A saudade...
No beijo que demora.
A alegria...

Em mil beijos seguidos.
É no beijo que o desejo se expressa.
E no beijo...
O fogo começa.
Respeito...
É beijinho na testa.
No rosto ...
É carinho.
Para ascender a paixão...
Beijos de mansinho.
Não quer se entregar
Quem do beijo rápido foge.
Ás vezes risco corre,
De beijar sozinho,
Quem ao beijo se encolhe.
Mas se o beijo permitido for,
Nasce o amor
E o poeta morre.

Andrógino

O beijo é o amor.
O beijo é o desejo
O beijo é a chave,
O retorno ao
Andrógino.

AMANTE

A saudade de ti
Inspira-me à poesia
O brilho do teu olhar
Lembra-me, nesta nostalgia,
O encontro do sol com o mar,
No horizonte dos meus sonhos.
Todas as faces são tuas
E qualquer movimento de meus músculos
Ou impulsos de minha natureza,
A ti se destinam.
O crepúsculo e o amanhecer,
Todas as flores...
E delas toda a beleza,
Curvam-se, frente a alteza do teu ser.
És negra como a noite,
Linda cor do pecado...
Passar dias de ti distante
É o pior dos açoites sobre este teu amado.
Destina as estrelas por vigias,
E te contarão, a cada passo,
como que num abraço,
o quanto te quer este teu amante

Id.

Que morram os poetas
Que morram os poemas
Que morram as flores,
Os amores e os dilemas.
De hora em diante
Serei apenas Potro
a sustentar meu falo viril.
“traçarei” todas as “potrancas”
insensíveis ao amor.
Que morram então os sonhos
E com eles a dor.
Liberte-se,
Entre gemidos,
Os prazeres reprimidos
De quem até agora
Somente amou.

Livre amor

Os conselheiros do amor
Não devem ser ouvidos.
Códigos e posições do prazer,
Deverão ser banidos.
Não há regra.
Não há método
A ser seguido.
Apenas amamos
E ao amor nos entregamos.
Se desejarmos na vida,
Algum livre amor ter vivido.

Sinfonia desconhecida.

De onde vem este som,
suave aos meus ouvidos?
Que faz silenciar os gemidos
da dor que hora sofro?
Quem será seu autor?
Será uma bela ou um belo?
Pois só pode ter beleza
Quem tão preciosa sinfonia compôs.
Vem de longe, de outro lugar,
Das cercanias da redondeza.
Ouça....
Parece traduzir a doce voz
De minha princesa!
Onde estará ela neste momento?
Quanta saudades sinto...
Bem. Sentarei.
Ó bela sinfonia!!!
Agradeço – e desconhecido maestro,
Acalmas meu tormento.

Moralismos idiotas.

Moralismos. Obras destes burocratas humanos,
São dos mesmos, cobras que traem e enganam.
Não se pode atender à moral
Quando se quer a liberdade.
Dos males, é o grande mal,
Que nos afasta da verdade.
Como matar esta praga
Que não permite o amor?
Esperai! O tempo inda apaga
Toda moral sem valor.
Então seremos verdadeiros,
Sem regras vãs para agir.
Será o agir a única regra
Que faz do homem herdeiro do amor.

Emoção e Razão


A razão domina a emoção.
Somos frágeis, tão frágeis e pequenos
Que a sina escrita no coração
É como um exército de guerreiros
Que domina os terrenos do vasto mundo da paixão.

Onde fita os olhos esta rainha,
Doce liberdade autônoma de razão,
Conquista o mundo essa menina,
Com suas artimanhas e segredos.
Num segundo vence todos os medos,
Ganha a fundo, vence sempre a emoção.

24.9.12

Algumas Teses já confirmadas na vida

- A história revela os homens. Embora, infelizmente, às vezes faça isso tarde demais a ponto de ser impossível reparar algumas injustiças;

- Se você tem um problema não se desespere pois todo problema tem solução. Logo, se algo não tiver solução, também não se desespere pois não há o que fazer.

- "Sorte é quando a oportunidade encontra a preparação".

- Dores, medos, derrotas, tristezas etc não são coisas a serem evitadas mas superadas. Nada é superado quando não se decide mudar o caminho quando for preciso.

- Seja bom. você não aprende bondade nos códigos de ética, livros etc. Você vive a bondade por mais que alguns te considerem mal, quem for bom será revelado pela história.

- É preciso aprender a ter paciência por mais que isso lhe custe segurar uma galáxia inteira em expansão dentro do peito.

- Não importa o quanto você se importa, alguns simplesmente não se importam.

- Algumas brigas não precisam ser compradas por isso, antes de dar o "pontapé" inicial, verifique se a "bola" não é de ferro.

- Sim. existem pessoas más que agem de má fé e vão te odiar sempre. Evite-as ou supere-as. Não seja ingênuo.

30.8.12

O PARTO DAS ESTRELAS



Estou levemente triste, ansioso, pensativo, angustiado... nada que fuja daquilo que sempre sinto. São raros os momentos nos quais uma pena de leveza voa sobre minha alma inquieta. Não me preocupa essa oscilação permanente. Sei que dores e amores não são coisas a serem evitadas, mas superadas, principalmente quando se encontram. O que perturba a psique elevando a taquicardia e explodindo o peito, são alguns motivos para mim banais, para a maioria complexos e que não devem sequer serem cogitados. Motivos toscos, talvez, mas motivos meus.
Como se pode conciliar o conflito da alma, da inteligência, da consciência, da realidade interna e externa e de toda virtualidade possível e intangível ao real? O pensamento não consegue apreender e nem compreender para além dos limites da razão. E, para além desses limites, tudo é possível: Deus, Diabo, gnomos e dragões alados. Mas se algo é possível de ser pensado não pode também ser realizado? Ou por si só, já não é real?
Nietzsche dizia que é necessário ter um turbilhão dentro de si para dar origem a uma estrela. Mas porque alguém deve querer gerar estrelas? Elas sempre ficam distante demais e quando as vemos não as vemos, são apenas rastros luminosos de uma morte anunciada.
Vivemos entre a terra e o céu, o que não faz diferença alguma já que estamos sobre a superfície da esfera, em órbita e com a eminente possibilidade de sermos lançados no vácuo em segundos. Basta qualquer erro de física na organização universal da gravidade e da abóboda celeste. Mas quem organizou isso? Quem? Quem senão a mente humana? Por que devo confiar nessa mente se ela mesma diz não poder ir além dos seus limites?

Quem estabelece os limites?
Enfim, estou no turbilhão e não quero parir estrela alguma. Todas às vezes que ousei fazer isso, as dores do parto foram sempre menores que as dores do vazio na escuridão contemplando o brilho de algo que já não existe mais. Então, todos os signos perdem ou confundem seus significados.
O que resta? A teimosia de gerar mortes? A vida com suas regras medíocres de medrosos humanos escondidos sob o véu da ignorância? Um sentinela ao pôr-do-sol impedindo a luz justamente para proteger a luz? Uma poesia agonizando no seio frustrado? Um poeta morto, torto e desengonçado?
Enfim, estou levemente triste, ansioso, pensativo, angustiado... Nada que não fuja daquilo que sempre sinto... E lá se foi o brilho de outra estrela que já nasceu já morreu e já não é mais estrela, é apenas o brilho que fica. Será que o que importa não é justamente o que vem depois daquilo que se deseja?

27.8.12

TAPERA DA POESIA



Eu tenho uma tapera. Na verdade não é minha. É alugada. Não. Na verdade eu nem aluguei ainda, apenas estou imaginando que já moro lá. Eu fui vê-la na semana passada. Eram oito horas e quarenta e cinco minutos da manhã quando peguei as chaves.
Tapera significa casa velha. É isso que ela é: uma casa
velha. É velha, mas fica num lugar muito bonito. Um lugar silencioso, no meio do mato. Um mato além do horizonte. Há muito tempo ninguém mora lá porque a sujeira tomou conta. Penso que dentro de um mês eu possa deixá-la limpa.
Quando eu cheguei à minha casa, que não é minha ainda, senti paz no espírito. O espírito é alma. Alma é psique. Meus alunos de filosofia sabem que quando eu me refiro a alma não estou falando da alma cristã, no sentido dualista que Agostinho parafraseou de Platão. Quando eu falo em alma falo no sentido aristotélico, ou seja, falo de inteligência. A minha inteligência é minha alma. Minha alma é minha, não é alugada.
Em poucos minutos eu vi a casa, vi o pátio... Observei que há ferrugem nas aberturas e que algumas telhas precisam ser trocadas. Percebi ainda que seja difícil organizar os móveis dentro dela porque além de velha ela é pequena e mal dividida. Mas pequena, assim como as crianças, ela é extremamente grande em seu silêncio e na sua inocência. Por isso, ela me segurou lá por mais de quarenta e cinco minutos.
Abrindo a janela da minha tapera, dá pra colher jabuticabas. Adoro essas frutinhas pretas e lustrosas que parecem te olhar. Talvez seja por isso que gosto de olhares negros como jabuticabas. Olhares azuis também são belos como o céu. Mas as jabuticabas são mais accessíveis que o céu! Perto dessa janela é onde colocarei meus livros. Na casa da frente mora uma senhora que cultiva orquídeas nas árvores. Parece uma mulher de alma serena. Aliás, imaginei o sereno da manhã naquele lugar e os meus pés poderiam senti-lo no gramado. Na verdade não há muito gramado porque as estepes tomaram conta. Isso não é problema porque dentro um mês de trabalho darei vida nova ao gramado. O único problema é que vou precisar de muitas ferramentas. Talvez algum amigo me empreste algumas. Bem, é verdade que antes talvez eu tenha que tomar emprestado um amigo de alguém. Acredito que isso não será difícil de conseguir.
Há belas árvores ao redor da minha casa, um amplo espaço para deitar sob o luar se tiver vontade ou mesmo esticar uma rede preguiçosa às vezes. Ouvi o cantar dos pássaros o tempo todo. Os pássaros que ouço na cidade nem sabem mais cantar. A poluição e o barulho devem ter desvirtuado seus instintos musicais. Aqui há outro detalhe, minha tapera fica há oito kilômetros da cidade. Eu preciso vir todo o dia para a cidade, porque preciso trabalhar. Gosto do meu trabalho na cidade. Não gosto mais da cidade. Uma vez eu gostava. Mas isso era até algum tempo atrás quando eu ainda tinha que provar aos homens da cidade que poderia ser um porco capitalista como todos eles. Agora não preciso mais provar isso porque quero cuidar um pouco de mim mesmo. Isso me gera um terceiro problema, esse um tanto mais grave, pois não sei quem sou. Ora, se não sei quem sou como posso cuidar de mim mesmo? Por outro lado a minha tapera não é minha e estou disposto a cuidar dela. Sendo assim, vou ter que aprender a cuidar daquilo que sou mesmo sem saber exatamente o que sou. Isso parece complicado.


Quando eu deixei minha tapera minha alma parecia ter alcançado aquilo para o qual todos os homens tendem: a felicidade. Na medida em que retornava à cidade meu corpo sentia dores novamente e meus pensamentos pesavam. Os pensamentos pesam quando são problemas. Diferente são os pensamentos leves, aqueles que brotam do sabor pelo pensar. E na minha tapera brotaram muitos pensamentos. Até as folhas das árvores, mesmo as secas, exalavam poesia.
Voltei para a cidade e para meus pensamentos pesados. O problema é que lembro o tempo todo da minha tapera. E as lembranças dela são pensamentos leves. Fico triste agora porque gostaria muito, mas não sei se poderei continuar morando na minha tapera, porque a existência não é só minha. Tudo o que tenho é só minha alma e nem a conheço. Mesmo assim me permito pensar na minha tapera e como seria minha vida nela. Eu sentaria sob a sombra de uma árvore para fumar um cachimbo e ler... Deitaria sobre o gramado para fazer um poema... Subiria nas árvores não para ver além do horizonte porque já estou nele, mas simplesmente para subir... Eu escreveria poesias e daria de presente para quem fosse me visitar, e se ninguém fosse me visitar eu escreveria poesias também. Mesmo assim eu pensei: Por que não ariscar viver como um filósofo, boêmio e poeta, assim simplesmente livre com meu eu, se o encontrar é claro.
De qualquer forma se um dia você for me visitar o endereço é o seguinte: Siga além do horizonte na Rua do Jacarandá, Tapera da Poesia, número 3055. Trinta anos é minha idade hoje. Cinquenta e cinco anos é o mínimo que gostaria de morar lá.

21.8.12

MEDO



Sinto medo. Meu peito quase não mais suporta a taquicardia. Os nervos latejam à forte ansiedade. Vez ou outra sinto uma leveza insustentável e a angústia paira novamente sobre meu ser. É o mundo, esse pesado mundo que desloquei do seu eixo fixo e lancei sobre meus ombros. Agora tenho medo de abandoná-lo, há seres nele que eu não gostaria de vê-los cair. Estou sufocado por uma nebulosa que eu mesmo criei. Maldita responsabilidade. Maldita liberdade que me permitiu ousar. Sinto medo que tudo caia e se desconcerte. Não sei ainda por quanto tempo vou suportar. Ah mundo, vasto mundo! O poeta já morreu em sua vastidão. Preciso continuar a marcha; ainda não é a hora de cair. Os braços trêmulos ainda equilibram mais alguns passos. Os passos rastejantes ainda podem esfregar mais alguns palmos de terra. Sinto medo. Tudo parece tão longe e tão perto que me causa náuseas. Talvez eu caia em breve, logo ali, bem perto da chegada. Não quero mais chegar. Não quero mais esse fardo. Maldição dos deuses! Sinto medo de não sentir medo e deixar que tudo padeça.

2.8.12

Ao meu filho - Verso II


Olha o pássaro que passa.
Passante passarinho.
Passo a passo eu
Também passo.
No voo dos teu braços,
Voam meu abraços
Em teus laços de menino.
Canta pássaro.
Contam os traços
Do pai no filho.
Como os pássaros
Voamos no espaço.
Passo a passo, laço a laço,
Tecemos um ninho.
A que cansaço!
Mas não me desfaço
Do teu amor meu
Filhinho.


PEDREGULHOS


Às vezes os dias fogem pelas minhas mãos, tão suavemente como teus cabelos entre meus dedos a te acariciar. Assim são os dias, as horas os anos: simples passageiros que vão sem avisar. Meu desejo é que os momentos que nos une sejam menos breves e se eternizem no espaço. Mas infelizmente caminhamos por tantos pedregulhos que os pés calejados afligem até a mais pura das almas angelicais. Alguns de nós deixamos essas feridas nos impedirem de buscar jardins floridos. Outros decidimos ir até o jardim e trazer flores aos que ficam, mas elas acabam murchando no caminho. Ainda existem aqueles que, apesar do cansaço, decidimos carregar no colo os que amamos e estão com medo de buscar.
Quando vejo teus olhos, todas as pedras do meu caminho se transformam em campos cobertos por vagalumes acendendo seus brilhos faiscantes. Quando toco tua pele suave, é como se andasse por vales refrescantes. Quando beijo teus doces lábios, crio asas e minha alma vai para além de toda dor. Por isso é que se tornou impossível te deixar. Você me diz que não quer mais caminhar, que não aceita a flor trazida de longe e que vai secar, que não quer que a carregue em meus braços até o jardim de rosas e crisântemos perfumados.
Você decidiu assim, assim será. Eu, por minha vez, decidi aceitar tua vontade. Sendo assim, deixarei você parada no caminho. Não irei buscar flores que em breve padecerão regadas apenas por tuas lágrimas, nem mesmo a tomarei nos braços para te levar além. É justo que você decida. Respeitarei tua vontade.
De ora em diante seguirei apenas o meu coração. Enquanto você aguarda de cabeça baixa no caminho, eu removerei as pedras. Construirei um pequeno córrego e com tuas lagrimas e meu suor, farei um pequeno lago. Pedirei aos pássaros dos céus que em seus bicos de cantores divinos tragam sementes das mais lindas e distantes flores. Falarei com as formigas e usarei de toda minha filosofia para convencê-las a trabalhar comigo em busca de alimentos. Darei minhocas ao João-de-barro para que ele construa um ninho resistente a mais dura tempestade e que seja aconchegante o suficiente para ter ares de castelo imperial.


Depois que tudo estiver pronto entoarei cantos aos anjos para que soprem ventos refrescantes sobre teus cabelos. Darei versos às estrelas para que iluminem os quatro cantos do mundo. A lua será teu espelho noturno e o sol aceitará morrer para doar seu brilho aos olhos teus. Quando você perceber que já é hora de romper as lágrimas, erguerá tua face angelical e verás que a felicidade está ali, bem pertinho de você há muito tempo. Dessa vez teu riso encontrará meu olhar e meus lábios beijarão teus passos e nos amaremos envoltos em doce paixão. Assim te amo assim te quero assim te espero: construindo nosso mundo para que todos os pedregulhos sejam removidos do teu caminhar.

20.7.12

PRECE AOS AMIGOS


Benditos sejais vós que sois meus amigos.
Amigos de almas plenas que me ensinam amar.
O amigo que habita a alma
é força que traz a calma
é estrela que brilha no olhar.



29.6.12

Ao meu filho - Verso I


Espero pelo futuro quando minha voz
Te venha à memória,
Num tempo em que a lembrança dos meus abraços
Ainda aqueçam teu corpo de anjo pequeno;
A canção de ninar inda soará em teus ouvidos e poderás sentir
Que fui e sou um dos teus amores.
Podes voar se quiseres e
Me deixar a ver o horizonte.


Voa pássaro meu.
Quero tua coragem, isso me basta.
Mas se sobrar um pequeno tempo
Do teu voo sobre o oceano
Lança um pensamento,
Um canto, dizendo:
- Pai eu te amo.
Assim, repousarei meus olhos sob a terra,
Saberei que desta minha vida pequena
Te dar a vida foi tudo o que me valeu a pena.

12.6.12

A existência



O mundo, repentinamente, parece se lançar sobre mim como um cão raivoso.
Os postes, como guardas discretos a me observar, enfileirados em sua onipotência ereta.
A calçada calcula meus passos.
As árvores registram meu pensar através da leitura molecular da minha respiração.
Até a fumaça do meu cachimbo redemoinha em torno do meu rosto tentando me sufocar.
Traidora miserável que tenho por companhia inseparável.
As pessoas passam depressa.
Estariam fugindo de mim?
Mas não sou eu o monstro, seus desgraçados!
Quero sair daqui, mas minha razão está inerte.
A poesia me prende no mesmo lugar e os significados emudecem minha voz.
O cão vira-latas é o único que demonstra compreensão.
Talvez porque se sinta a minha altura.
E minha altura já se sente e se senta no chão.
O caminhar cessa e agora rastejo.


A força dos braços é menos resistente que a folha apodrecendo na sarjeta.
Rolo sobre as pedras e esbarro na folha seca.
Tento retirar dela os vermes e trazê-los perto de mim para que me consumam com maior rapidez.
Até mesmo estes me ignoram.
O mundo é mal.
A maldade está corrompendo as estrelas e a noite é coberta de cinza.
A dor já retrai meus músculos e os espinhos entranham minha epiderme.
O texto foge dos meus livros e as páginas ficam amarelas na medida em que as folheio.
A vida fica insossa, inodora e incolor.
Com sofreguidão ergo as míseras pálpebras pesadas e vejo os pés da Morte montando guarda.
Morfeu ri e se afasta. Grito!
E o grito se perde antes mesmo de tocar os lábios.
No último e desesperado esforço caio além do chão em que me encontro.
A terra se abre numa fenda minúscula e nela desapareço imperceptível ao mundo que fica.

8.6.12

Poema de inverno


Os transeuntes começam a exibir seus belos casacos de inverno. O vagabundo mudou seu mundo debaixo da árvore para o espaço aquecido pelo sol, logo depois da fonte, no meio da praça. Aquele casal de namorados com livros do colégio, concluiu que seria melhor se abraçarem com mais força para não dispersas a energia dos corpos. Enquanto isso, numa choupana além do horizonte. Um casal de velhinhos pensou que deveriam reunir mais lenha para a lareira e fazer a cama com uma coberta a mais. Os passarinhos se amontoaram no galho da árvore de tal forma que pareciam um travesseiro de plumas. A gata veio se deitar, preguiçosa, aos pés da dona gorda que decidiu assinar um serviço de TV para assistir às novelas mexicanas. As crianças guardaram suas bicicletas. Meu filho ganhou um par de luvas, mas não gostou delas porque limitam a habilidosa curiosidade das mãozinhas de bebê.


Toda essa nostálgica movimentação para receber os dias frios. Alguns os esperam, outros esperam que passem logo. É todo um ritual que se inicia. O inverno implica numa mística propícia ao acolhimento enquanto que os dias quentes nos envolvem mais para o acasalamento. De certa forma, não se pode negar que é o trabalho da natureza transformando a tudo com sua lógica intangível.
Quanto a mim, continuo a observar e a brincar com as palavras. No entanto, também tomei algumas precauções: comprei mais vinho e tabaco para o cachimbo; separei alguns livros como Goethe, Schopenhauer, Pessoa, Sartre e Fagundes Varela; convidei alguns amigos para o ócio criativo; e, não pensei nisso mas sei que irei pensar sobre a chuva, o silêncio, o medo e todas essas coisas que me farão abrir outra garrafa de vinho.

23.5.12

Na contramão do tempo


Sinto saudades de um tempo que não vivi.
Saudades de uma história que não construí.
Saudades de Ser o que não fui.


Tudo isso está aqui dentro de mim.
Corre solto à flor da epiderme.
Assim, torno-me esse ser nostálgico
De um mundo que não me pertence mais;

Sou uma espécie de Tupiniquim,
Dom Quixote sem moinhos,
Mas com muitos,
Constantes e fortes vendavais.

22.5.12

VERMES DE NEGOCIATAS


Covardes! Verdadeiros covardes.
Eis o que sois: vermes de negociatas.
Fácil é julgar a traição passional;
Posto que todo amor é tolo e fatal
Ou criança inocente que não sente
Vossos juízos de vã moral.
Difícil, deveras, é seres ético na amizade;
Conservar-te digno entre moedas de ouro
E milhões em quilates.
O que vale mais:
Suas ações na bolsa de valores?
Teu nome no The new york times?
Ou o cão vira-latas ao meu lado agora?
É certo que, ao contrário de vós, não tenho algum dos primeiros.
Este último ao menos, lembra a condição humana;
E o dia em que jurastes honrar nossa amizade.

Do que precisas agora?
Que continuemos as "peladas" no sábado à tarde?
Que sentemos juntos para rir de algumas piadas?
Sorrir e abraçar os "velhos amigos"?
Pedir ajuda, pois somos ainda fracos e corremos perigos?

Não! Covardes imbecis.
Já me falta, a mim e aos meus, lugar próximo a vós.
Tendes muitos cálculos a fazer...
Espero que contabilizes os amigos que já não mais são vossos,
Também a história a qual destes fim.

Talvez sejam todos Napoleões
Que os Bufões aqui não tenham reparado.
Continuo com meu cão
Que com vossos nomes será "re-batizado".
Vão para vossos negócios, vermes traidores,
Qual Judas desgraçado.
Chamarei os que sobraram.
Tocarei fora o cão para que vossos nomes não sejam evocados.
Tomaremos um vinho,
Fumaremos um cachimbo.
Retomaremos à amizade que para nós ainda é espaço sagrado.

18.5.12

Avante!



Dentre todas as escolhas possíveis, por que escolhemos ou aceitamos estar aqui? O que esperamos uns dos outros? Quais são os projetos de vida, os sonhos, as dúvidas de cada um aqui presente? Estamos diante do outro, aquele que ainda não conhecemos. O outro é sempre um desafio.
O filósofo francês, Jean Paul Sartre dizia que “o inferno são os outros.” Por quê? Por que o outro, o estranho, o diferente, é sempre aquele que pode dizer não ao meu sim.
O outro pode incomodar minha segurança pessoal; questionar minhas verdades, desafiar a superar a mim mesmo. Mas para isso é preciso ter coragem e autonomia suficiente para ter a ousadia de viver e desenvolver a capacidade de conviver com o outro sem negar as diferenças, mas sim, usar da adversidade para ampliar nosso próprio horizonte.
Frente à novidade que se apresenta no Instituto Federal Farroupilha – Campus de Santa Rosa, criamos expectativas, ficamos ansiosos, temos dúvidas ou mesmo sentimos alguma forma de medo. Nossa primeira lição é de que sentimentos como a incerteza e o medo não são algo a ser evitado, mas superado.
Aqui aprenderemos a técnica, mas não apenas o saber fazer. Aprenderemos a técnica sustentada pela ciência e pela ética. E para isso será necessário um constante diálogo entre todas as ciências.
Que o conhecimento da história nos possibilite uma leitura crítica sobre aquilo que fomos, somos e poderemos ser.
Situaremo-nos geograficamente no tempo e no espaço para a compreensão e a integração social.
Somaremos esforços. Subtrairemos tristezas. Dividiremos experiências. Multiplicaremos sonhos e projetos.
Seremos artistas da realidade, desenhando e colorindo com as próprias mãos, a paisagem da existência.
Usaremos a física para termos acesso à mecânica do universo.
Educaremos o físico para tornar saudável a razão evitando a mera mecanização do progresso.
Que os elementos químicos da biologia humana, reajam numa explosão de adrenalina na construção e na realização da vida.
Utilizaremos a tecnologia da informação para dizermos: “Olá mundo!” e compartilharmos as mais ricas experiências.
Aprenderemos as letras para dar significado ao conhecimento e construirmos o sentido da vida.
Caminharemos guiados pelas mãos da melhor pedagogia possível.
No ensino médio, subsequente ou proeja, teremos os mesmos princípios mesmo que buscando futuros diferentes.
Aprenderemos as técnicas para edificarmos obras. Porém, de modo muito mais sólido aprenderemos a moldar nosso caráter.
Desenvolveremos a difícil arte de vender. Contudo jamais nos esqueceremos de oferecer junto a todos os bens e serviços, o respeito pela condição humana, que se realiza, mas não se esgota no capital.
Que aqueles que dominarão a técnica moveleira, abusem de toda a criatividade e inquietude da alma e que nos mobilizem diante dos resultados das suas competências e habilidades.
Usaremos os laboratórios para verificarmos as técnicas da agroindústria. Porém jamais esqueceremos que a manipulação técnica, sem consciência ética é uma das principais ferramentas para as maiores atrocidades humanas.
Teremos por irmãos o solo, o ar, as águas da natureza, mãe gentil. Aprenderemos a dominar a tecnologia e a ciência para um meio ambiente equilibrado, respeitando a fauna e a flora, para que os que viverão no amanhã, orgulhem-se da forma que decidimos viver o agora.
O espaço está aberto para as diferenças. As ferramentas materiais e intelectuais estão disponíveis. Aquele que tiver ousadia suficiente para aceitar o desafio, encontra aqui a oportunidade.
Sejamos ousados nos desafios do conhecimento científico. Tenhamos prudência ao decidir e agir, para preservarmos a dignidade humana e garantirmos um desenvolvimento crítico, reflexivo e comprometido.
Diante da realidade que começamos o que esperam de nós, vocês alunos, pais e comunidade? Profissionalismo? Inovação? Companheirismo? Serviço? Educação?
O que esperamos nós, servidores?
Esperamos tudo. Todas as possibilidades da juventude que desabrocha para o futuro. Esperamos tudo, porque “tudo é possível a baixo do sol e da lua.” Esperamos tudo, porque “vemos em vós o borbulhar de gênios. Vemos além um futuro radiante. Avante brade o talento em vossas almas. E o eco responda ao longe: ‘Avante!”.
__________
¹Sidinei Cruz Sobrinho: Filósofo, Bel em Direito e Poeta. (texto elaborado para a abertura do ano letivo 2010. no Instituto Federal Farroupilha – Campus Santa Rosa).

17.5.12

O diabo da guerra.


Chegará o momento certo
Em que o demônio ressurgirá das trevas.
O homem então verá, no próprio reflexo,
O processo da morte que não chega.
A eternidade pesará sobre seu sono,
E a angústia tomará sua existência...
A epopeia em busca da verdade,
Chegará ao término,
Quando perceber sua essência
No espelho refletida.


Pender-se-ão torrentes de lágrimas em sua face
No sangue da ferida a razão,
Coagulando de súbito a utópica ilusão,
Revelando no ente a tristeza presente.
Na morte da morte;
Abrir-se-ão os olhos deste verme impugne,
À sua insignificante realidade.
Virtuais são o céu e o diabo;
Tudo está preso em seu próprio rabo
E dali surgem suas ideias fatais.
A reminiscência só será possível
Quando esta besta abandonar suas pilhérias
E chegar à maturidade.
“Livre-se logo!”; urram todos,
“Desta guerra nojenta e do próprio demônio que és”.
Antes que este dia, tão logo chegue,
Pois não muito longe já se encontra;
Abandone a guerra, se possível ainda for.
Livra-te desta tua filha maldita.
Entrega-te logo à paz e ao amor.

4.5.12

PRAZERES INSANOS



A boca suave e quente da imortal amada, abre-se num desejo ardente de ser em beijos penetrada.
Os seios provocam, tímidos num decote profundo.
Seu “umbiguinho” desfila nu, safado e vagabundo.

Ombros curtos e desenhados suspendem o corpo esbelto e o sensual rebolado.
Logo acima do bumbum delicadamente arredondado, duas covinhas desfilam provocantes, indicam o desejo dos amantes num olhar safado.

Ela deita-se despida e selvagem, tocando o corpo com as mãos pequenas e olhar de volúpia.
As pernas se abrem e os grandes lábios tocam os lábios do seu homem. A língua do amante é falo viril.
Gemidos de prazer os levam ao êxtase eterno.
Por longo tempo os dois corpos se confundem e o suor banha o leito de amor e sexo.

A flor rosada que brota inofensiva dentre as pernas é flor carnívora que devora o caule em carne do amante.

A boca suave e quente da imortal amada, fecha-se num suspiro de satisfação profunda.
Fica o amado a velar seu repouso até que o açoite do desejo retorne.
Tortura de corpos nus com despidos delírios de prazer e gozo
Desejo insano que só pertence aos mantes que lucidamente se amam.

Furto

Esgotaram-se os versos, as flores dos campos e as estrelas do céu...
Furtei tudo para enfeitar os caminhos que levam até você.

3.5.12

Você, a chuva e eu.


Hoje observava a chuva. Muitas pessoas não gostam da chuva. Talvez porque elas não têm tempo para sentar frente à janela e ver aquelas gotas preciosas, feito cristais, regando solo fértil. Pode ser ainda que essas pessoas não percebam como a chuva lava a poeira das folhas das árvores, devolvendo um verde mar de vida inefável. Além de tudo isso, penso que o principal motivo é porque elas não têm alguém especial em quem pensar alguém assim, puro e transparente como chuva, viva como você.
Sentei com uma xícara de café, preto e forte nas mãos, a água correndo pela calçada, pelos vidros, pelas plantas, o vira-lata molhado e tremendo de frio, o cheiro da poeira apagada e um frio gostoso que me fez desejar teu abraço para aquecer. Desejei então que a chuva que se estendia desde a noite passada, lavasse minha alma. Queria estar imaculado e límpido para te amar. Descobri que a chuva não poderia fazer isso por mim, mas que seu amor era capaz de me tornar o mais belo homem capaz de te amar.
O pensamento se liquefez e meus sonhos se solidificaram quando ouvi tua voz, senti tuas mãos nas minhas e contemplei o brilho dos teus olhos. Algumas pessoas não gostam da chuva porque não são capazes de ver a essência que ela traz e banha a terra. Poucas pessoas merecem te amar, porque são poucas capazes de compreender tua essência, teu perfume, tua alma de mulher angelical.
Olhei a minha volta e percebi que alguns vizinhos também olhavam a chuva. Decidi que precisava ir além deles. Novamente lembrei de você e de que muitas pessoas olham admiradas quando você passa. Não tive dúvidas, abri a porta e sai a correr na chuva. Agora sim eu tinha vencido os seres comuns, eu tive coragem de fazer o que muitos queriam, mas não fizeram: sai na chuva, como se estivesse nu, para receber plenamente toda a pureza que os deuses enviavam dos céus. Assim, nu, livre e inocente eu tive a coragem de te buscar, de encontrar teu amor e mergulhar nele de corpo, alma e espírito.

30.4.12

Breve diálogo sobre ÉTICA



Breve diálogo sobre a ÉTICA


- Diga-me nobre amigo, de forma breve, em que consiste a ética?
- Caro Nefasto. A ética é a reflexão sobre uma ação específica. Não existe códigos com regras éticas, porque a ética é universal e depende da reflexão sobre cada caso específico. Reflexão essa que permitirá que a pessoa que julga aquela ação possa afirmar se é uma ação justa ou injusta, correta ou incorreta, por fim ética ou antiética.
- Então concordas caro filósofo, que moral é diferente de ética?
- Obviamente que sim, caro Nefasto. A moral é o agir de acordo com o dever pelo dever, a regra em si. Por exemplo: não mentirás, não matarás etc.
- Então é possível mentir ou matar e mesmo assim ser ético?
- Sim. Mas somente a ação em si poderá dizer isso. Não há como afirmar de antemão se aquela mentira foi ética ou não, embora sempre seja imoral mentir, matar, furtar etc..
- Me ajude com o seguinte exemplo: Um homem que é colega de trabalho de outro e difama seu colega diante de terceiros, sem a presença e nem provas daquilo que fala sobre o seu colega, seria ético?
- Veja bem, caro Nefasto, assim como a mentira, a difamação é sempre imoral. Nesse exemplo que você traz, possivelmente também será antiética.
- Por quê?
- Porque, meu caro amigo, se aquilo que o colega fala sobre o outro, difamando-o, for verdade, ele não teria medo de falar diante de terceiros e na presença do outro colega aquilo que este tem de ruim a ponto de merecer a má fama. Com certeza se esses terceiros que ouvem forem inteligentes e conhecerem ambos os colegas da história, farão uma reflexão e o juízo de valor deles será sobre uma análise de ambos os colegas e não apenas sobre aquilo que um falou sobre o outro.
- Obrigado caro filósofo, compreendi a questão e julgarei melhor os homens de hora em diante.
- Lembre-se de Sócrates, meu caro Nefasto, antes de aceitar aquilo que dizem sobre o outro, principalmente na ausência do "outro", se pergunte: é verdade; é bom; é útil o que dizem sobre ele? Se a resposta for negativa significa que não deves dar ouvido para o que estão dizendo.
- Interessante meu amigo, se fizermos essas perguntas sempre que nos falarem mal de alguém passaremos mais tempo em silêncio e com menos preocupações inúteis!
- Exatamente, prezado Nefasto, acredito que aprendestes uma nobre lição.

o q vc diria para uma pessoa com insegurança e angustiada?

Olá anônimo(a). Se a pessoa é insegura possivelmente eu a deixe mais insegura ainda a ponto de ruir em si mesma para que ela possa se reencontrar a partir de si mesma. A insegurança, diferente do medo, é um estado no qual a pessoa está perdida porque não tem certeza dos objetivos da sua vida. O medo é quando você sabe o que quer, mas por precaução exita um pouco antes de agir. O medo é sinal de prudência. A Insegurança é sinal de imprudência porque você está caminhando sobre o desconhecido e não sabe se quer conhecer o caminho. Está perdida, desarmada, "desalmada". A angústia assim como o medo, não são coisas a serem evitadas mas superadas porque são inevitáveis. A insegurança deve ser evitada através de uma profunda reflexão filosófica que te possibilita, como diria Sócrates, a conhecer a si mesmo. "Conhece-te a ti mesmo" e terás segurança para superar todo medo e toda angústia. Então eu diria, depois disso, para uma pessoa insegura e angustiada, citando Castro Alves: "Vejo em ti o borbulhar do gênio. Vejo além um futuro radiante. Avante! Brade o talento em tua alma. E o ECO responda ao longe: AVANTE!

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25.4.12

VIDA


Às vezes a vida fica é difícil. Mas não é sempre assim. Às vezes são espinhos sem rosas. Outras vezes são jasmins. Existem dias nos quais o dia se confunde com a noite, de tão sombrio que ele é. Pessoas más confabulam em segredo contra pessoas boas de coragem e fé. Assim parece ser a vida, mas, na verdade, não é assim que a vida é.
Discursos vão e vem entre os pobres mortais. Que diferença existe que torna os selvagens piores ou melhores que os racionais?
A esperança, o medo, a coragem e a saudade são ideais inventados ou são verdades que podem ser contestadas?
Tudo parece tão contraditório. Mas não é sempre assim. Às vezes as coisas parecem ser boas para os outros e as mesmas coisas ruins para mim. Também é verdade que isso não é sempre assim. Às vezes parece o contrário e a vida sempre se torna boa quando chega ao fim. São apenas ideias e ideais que mudam com o tempo e se perdem no vazio dos sentidos e dos significados.
Os pensamentos parecem artes marciais com giros impossíveis. Os duelos são inevitáveis. O melhor artista é o ilusionista que faz parecer ser o que não é. A única realidade, verdade ou não, é que a vida é sempre assim: às vezes é deserta outras vezes é jardim.

24.4.12

PRETENSÃO.

Pretendo pensar. O pensamento em si já rodeia meu ser antes mesmo que o deseje. O esforço para que o pensar se traduza em palavras é deveras angustiante. O que dizer? Por que dizer assim e não diferente? Entenderão meus interlocutores ou mesmo eu entenderei o sentido do que é dito? O pensamento é sempre leve e solto. Mas as palavras o prendem, o limitam e muitas vezes o matam. Se não encontro palavras significa que não penso? Sinceramente! Muitas vezes desejo não falar, mas tão somente pensar. Porém, mesmo quando apenas penso, o meu pensar é o meu penar, pois surgem as palavras; Os símbolos, os signos e a frustrada tentativa dos significados e dos sentidos. São jogos, as regras podem ser mudadas se os jogadores concordarem. Mas qual serão as regras para se chegar ao acordo? De volta à pretensão de pensar...

21.4.12

O observador Nas horas matutinas, quando o dia acorda a noite e a lua se despede da boemia, os deuses reencontram suas moradas. Ruas são sempre caminhos de ninguém. Calçadas, árvores, lixeiras e andarilhos não existem mais, são apenas coisas comuns à paisagem. O que existem são os anfitriões da noite e corruptos do dia. Horas e horas negando o ócio que faz o mundo girar em paradoxos inexoráveis. Tantas pessoas aqui e ali num zigue-zague maluco. Aquela é tão diferente! Essa parece triste. Estaria aquela outra feliz ou esconde dores que só a alma conhece? O olhar segue os passos, os braços, os jeitos, o individual, o todo. Do alto é possível ver melhor. O que parecia cheio de diferenças é completamente igual. Do alto, a vida parece ou é, uma mera ilusão de ótica. Para onde foram os sonhos que não se realizaram? Os sonhos não sonhados? Os sonhos frustrados? Vão todos para a morte, lá onde a noite começa e o dia termina como todos os outros. Qual a importância daquilo que você se importa? Toda casa tem uma porta. Isso não importa. Quem passa por ela, abre ou fecha, limpa ou entorta, traz vida ou deixa morta e vai embora. Compre um saco de batatas, um carro novo, fuja para a montanha, vá para o meio do povo. Não importa o que você faz ou com quem você está, no final, você sempre estará sozinho. Nas horas vespertinas, quando o sol anuncia a lua e os deuses servem para nada, as ruas se derramam embriagadas do dia e o dia se entorpece de madrugadas. Deixem a paisagem se mover e os semoventes com suas dignas loucuras. Chamem as prostitutas e os padres, os intelectuais e os imbecis, as lixeiras e as calçadas, o tudo e o nada. Cantem hinos, bebam vinho. Aproveitem o dia fugaz – “carpe diem” - Festejem os anfitriões da noite e os corruptos do dia. Façam o que quiser estejam onde estiver. Somos todos meros desenhos da paisagem. A importância sempre depende de quem olha. E quem observa, observa sempre a partir de si mesmo. Sidinei Cruz Sobrinho sidineisobrinho@hotmail.com

O PRÓXIMO PARTO!!!




O próximo parto.

Há um turbilhão dentro de mim. Uma legião desses seres enigmáticos com os quais luto desde o início de minha consciência. Já haviam me alertado de que o processo de pensar é doloroso. Nietzsche me avisou, num dos nossos secretos encontros bibliográficos, de que é "necessário ter um caos dentro de si para dar à luz a uma estrela." Quão doloroso é o parto das idéias. Elas nascem compulsoriamente, tornando a dor uma constante inseparável. Algumas morrem logo que encontram o mundo perverso onde deveriam sobreviver. Outras são prematuras. Ainda existem aquelas que teimam em não nascer e se mantém no íntimo da alma numa gestação eterna. Pensar, penar e pesar são muito mais que palavras rimadas, são golpes da autoconsciência que açoitam os sentidos, os sonhos o real e o virtual. Pensar é penar além das coisas. Pensar é o pesar que apesar dos pesares se mantém.
Todos os dias quando o mundo salta aos meus olhos inúmeros arquitetos começam a fazer cálculos e a redimensionar minha mente. Ali, nos recônditos do ser, ergue-se uma casinha medíocre, para abrigar os operários. Esses mórbidos e incansáveis víveres que se abrigam a espera do resultado. Mais adiante, num palacete, as poucas idéias que se estabelecem como válidas, triunfam, mas sempre temendo as que virão. Nunca se sabe quando uma idéia pode morrer ou nascer. A imprevisibilidade dos dias e dos pensamentos é um pesado fardo a se carregar.
Às vezes eu decido não ter mais idéia alguma. Logo me encontro nessa contradição, pois deixar de pensar também é fruto de uma idéia. Estou preso. É um caminho sem volta. Bastou o primeiro pensamento e tudo se amontoa sobre esse punhado de massa encefálica. Os ignorantes são felizes porque jamais pensaram. No entanto uma vez apenas que se ouse pensar, jamais se retorna ao estado inicial. A partir de então a solidão e a angústia se fazem companheiras irresolutas. Vez ou outra o turbilhão parece se acalmar e todo o esforço, enfim, aparenta ter sido válido. Contudo, basta uma folha cair da árvore, um mendigo morrer na praça, uma conversa despreocupada que seja e eis que a procriação reinicia. É uma pesada metamorfose que leva meses para dar vida a algo que poderá voar apenas por alguns dias. Decido continuar e me envolvo novamente como a larva solitária.
Pensar é sempre um ato solitário com a remota possibilidade de tornar-se solidário. A solidariedade é a arrogância de se dividir o que se tem com aquele que não tem. O "Outro", objeto da minha solidariedade mesquinha e volátil, pode não ter o que tenho, mas pode sempre ter aquilo que não tenho, inclusive uma idéia contrária, antídoto fatal a minha pretensa sabedoria. O diálogo implica sempre em morte e renascimento. É a lei da natureza que se propaga no espaço do pensamento. Também no mundo das idéias prevalece Darwin e a seleção natural das idéias mais fortes.
Toda a fuga é vã. Esses diabinhos que se amontoam em palavras e que se concretizam nos lábios gerando uma ação são as idéias. Se minha ação é fruto das idéias de outrem, chamo a isso de subordinação e sou feliz, porque a responsabilidade é de quem as gerou. Se agir conforme minhas idéias, chamo a isso de liberdade e carrego com ela toda a responsabilidade do meu pensar e a inevitável dor do próximo parto.

Sidinei Cruz Sobrinho
Passo Fundo 24 de agosto de 2008.


7.2.12

Embriagado


O vinho embriaga a Alma!!
O corpo se entrega ao corpo.
Embriagados...,corpo e alma.., se entregam
no corpo.., na calma.., na alma, na embriaguez..
O vinho traz a calma.
O corpo..? Prisão da Alma, traz o vinho.
Assim! Corpo e Alma se aninham em busca da lucidez!
O vinho embriaga a Alma.
O corpo se entrega ao corpo...;
embriagados como da primeira vez!

4.2.12

COLECISTOPATIA CALCULOSA


Estou frustrado. Profundamente frustrado.
Pedi aos deuses, com orações e agrados que
me dessem um coração em gelo empedrado.
Ganhei uma "pedra" na vesícula que
incomoda e bílis ridícula.
Pedido certo. Serviço errado.
Estou frustrado... Profundamente frustrado...
Dor certa. "Cálculo" errado.

Passo Fundo 04 de fev de 2012