16.12.09

A PROSTITUTA


A prostituta

A cafetina veio pessoalmente nos recepcionar. Vestia uma túnica branca e transparente. Usava o inseparável lenço sobre os cabelos. Deste, às vezes, ela o fazia de venda. Brincava de gata-cega com alguns clientes.
- Boa noite meus queridos filósofos. Como estão hoje? A mesa dos senhores está reservada. Como sempre, são os últimos a chegar e os últimos a sair, o que os torna sempre presentes porque capazes de ver o que já está e dizer o que será. É sempre difícil convencer aos demais convivas de que não podem ocupar o lugar reservado a vocês. Pobres coitados, não sabem quanto estimo nossa intimidade. Esqueceram que só existo por vossa auspiciosa existência. Vieram somente vocês três hoje?
- Bondade a sua minha cara. Como sempre, sutil em vossas exímias colocações! Hoje apenas Epicuro, Aristipo e eu. Os outros parecem um pouco desanimados com seus serviços. Desculpe-me a sinceridade. Você bem sabe como são os metafísicos.
- Meu caro Diógenes, não se preocupe com isso, eu sempre amarei a todos vocês: meus pais, meu filhos, meus amantes e meus carrascos. Mas, deixemos esse diálogo nada socrático para depois do prazer. Entrem, há muitos convivas e muitas atrações em minha casa.
Themis nos recebeu mais uma vez em sua morada. Entramos e despertamos olhares de todos os tipos: amigáveis, zombeteiros, indiferentes, menosprezados... Nada diferente do que aquilo a que já estamos acostumados. Aliás, pouco nos importa o olhar. Divertimos-nos várias noites fazendo troça de alguns. O que queríamos mesmo era ver a linda filha da cafetina, Diké.
Diké como seu nome revela, era mesmo uma deusa. Lindos cabelos cobrindo seu fino pescoço. Lábios torneados por Zeus e embebidos no mais fino néctar. Certamente era a mulher mais cobiçada por todos. Infelizmente a muitos poucos era permitido o prazer de deitar-se ao seu lado. É deveras um castigo dos deuses que nem todos sejam dignos de tamanha honra.
- Vejam meus amigos, quem diria que a cafetina que nos recebera já foi tão bela quanto Diké. Dizem os mais vividos e antigos fregueses que, quando jovem, Themis era a mais sedutora das criaturas divinas. Tão graciosa e desejada quanto a filha.
- E como haveria de ser diferente querido Aristipo? Ela é filha da terra (Gaia) e do paraíso (Urano). Foi criada em berço divino, junto a sua prima Nêmesis. Esta, no entanto, tomou caminhos diferentes aos de Themis, dada sua personalidade demasiada ética.
- Não esqueça, contudo, caro Epicuro, que, auspiciosa em suas escolhas, Themis pesava com muita astúcia os clientes que a procuravam. Mas em virtude da juventude, sempre conseguia atender a todos. Claro que a cada um devidamente com seus méritos e com os prazeres que ela lhes considerava dignos receber.
- Bem sei disso, nobre Diógenes. Lembro ainda que em tenra idade e astúcia, gerou em seu ventre três lindas divas: Eunômia, Diké e Eiriné.
- Por que lhes foi dado esses nomes gregos? Diké é um lindo nome, mas Eunômia e Eiriné não soam bem e não despertam tanto prazer.
- Se é que os nomes influenciam no caráter, eis nessa história um bom exemplo, jovem Aristipo. Além disso, você não se encontra em condições de fazer pilhérias aos nomes alheios. Contudo, Themis já me contou essa história. Me paga outra dose de uísque e contarei.
- Diógenes seu verme. Mora num latão! Gritas pela praça que não precisas mais que um copo d’água e um pedaço de pão. Agora exiges uísque? Assim passarás por tolo e será motivo de zombaria para Platão.
- Tolo é Platão. Deve estar tão envolto no mundo das idéias que esquece viver tão nobre prazer. Vamos lá, pede que aquele simpático serviçal, como se chama mesmo?
- Aristóteles.
- Exatamente! Não poderia ter escolhido emprego melhor. Analítico e metódico ao extremo. Diga a ele que nos sirva enquanto volto a falar de Themis.
- O sentido dos nomes gregos se dá porque Themis sonhava com a eterna união das três filhas, como que num ritual simbólico. Porém isso não foi possível. Eunômia, a mais jovem, abandonou a mãe e juntou-se a Nêmesis. Era disciplinada em demasia para continuar ao lado de Diké, quando esta, por sua vez, começou a seguir os passos da mãe na vida profissional. A terceira filha, Eiriné, morreu ainda no parto. Reza a lenda que esta nem chegou a ser gerada. Tratava-se mais de uma gravidez psicológica. Possivelmente pelo desejo utópico de Themis em dar à luz a tão sonhada criatura. Outros ainda, dizem que foi raptada quando do seu nascimento e que um dia ainda será encontrada pelas mãos de Diké. No entanto, como seu próprio nome traduz, Eiriné é a paz, e como tal, há milênios não passa de uma lenda. Mas quem somos nós, meus caros amigos, para duvidar de que aquilo que se pode pensar enquanto idéia, um dia também possa existir enquanto fato? Equivoco-me prezado Epicuro?
- De modo algum, caro Diógenes. Foi tão claro quanto a luz da lanterna com a qual buscas um humano digno pelas ruas à plena luz do dia. Bom seria, meus amigos, se após tantos anos, tivéssemos o prazer de ver mãe e filhas juntas.
- Melhor ainda, meus caros, se Themis tivesse ouvido o conselho dos mais velhos e não tivesse perdido o vigor da juventude. Penso que seu maior erro foi ter posto nas mãos dos cafetões a devida distribuição dos lugares a quem a procura. Aliás, apenas ela nos acolhe com tamanha cordialidade. Eles, por sua vez, pensam ter encarnado o próprio poder de Themis e ainda acreditam dominar os passos da nossa querida Diké.
- Está coberto de razão Aristipo. Se ainda nos fazemos presentes é dada nossa teimosia e a inegável contribuição para que Themis não tenha sido morta pelas mãos desses miseráveis. Além disso, só nós conhecemos os encantos secretos que ainda fazem Diké sorrir.
- Prezados amigos, temo que os cuidados com Themis e Diké já não nos pertencem mais. Vejam o infeliz destino a que foram entregues quando separadas da disciplinada Nêmises, da correta e virtuosa Eunômia (ética) e da mesmo que utópica, mas possível paz guardada no seio de Eiriné.
- É bem verdade Epicuro. Ao poder irracional dos cafetões pertence o fim dessas duas. Quanto a nós, enquanto filosofamos: “Edamus, bibamus, gaudeamus: pos mortem nulla volluptas.”
- Quando foi que aprendeu a falar latim, Diógenes, seu cão cínico? Mas concordo contigo e traduzo em alto e bom som para os demais convivas que estão a nos olhar como se fossemos de outro mundo: “Comamos, bebamos, alegremo-nos: depois da morte não há prazer.”

P.S: A quem os nomes citados acima causam estranheza, sugiro um rápido passeio pela mitologia grega e pela filosofia antiga. Exceto à metáfora dos “cafetões de Themis e Diké”, estes surgiram apenas após o Direito Romano, mas também podem ser encontrados na figura dos que condenaram Sócrates à morte. Salvo ainda as exceções dessa exceção. Quer saber? Tire suas próprias conclusões eu vou comer, beber e me alegrar antes que a morte chegue.

11 comentários:

Diego disse...

Quem diria que tivéssemos a alegria de redescobrir um diálogo tão importante. Pressuponho que as escavações para tal achado devam ter partido do acaso, pois do que é demasiado sério e profundo não se podee esperar muito mais do que a secura e a frieza do vazio.
Me alegro que Aristóteles tenha tamanha competência nas atividades serviçais, afinal mesmo o senhor da metafísica precisa comer e beber para praticar sua arte filosófica e demonstrar os primeiros princípios. O que me intriga é o fato de Aristóteles trabalhar em tal ambiente. Tendo sido discipulo de Platão, deveria ter seguido os conselhos do mestre e se afastar das trevas, das paixões do corpo.
Bem, espero que Aristóteles tenha servido pão e água à Epicuro; mesmo que seja tão virtuoso, Epicuro parece estar 'historicamente' viciado em pão e água. Acho que vou experimentar também, antes que seja abatido pela morte.

Sidinei Cruz Sobrinho disse...

Com certeza caro Diego. Aristóteles se obrigou a trabalhar no cabaré pq os cafetões tiraram dele toda capacidade de se ocupar com Dikè

Ricardo Novais disse...

Olá, caro Sidinei.

Muito bem escrito o texto, reflexivo, livre e sutilmente mordaz; muito bom mesmo, parabéns!

Aliás, colocarei este seu blog na lateral de indicações do meu; tudo bem?

Grande abraço, e, outra vez, parabéns pela ideia do blog.

madness disse...

"depois da morte não há prazer".

existe quem discorde. uaheuhuaeh. professor, admiro tua desenvoltura com as palavras. forte abraço!

Sidinei Cruz Sobrinho disse...

Obrigado meu caro. Percebi que as palavras também o incomodam. Lembre-se do filosofo Hegel: "O Homem capaz de compor um poema sobre a paixao que o obceca torna-a menos perigosa"

Anônimo disse...

pode até torna-la menos perigosa,
mas esquecela JAMAIS

Sidinei Cruz Sobrinho disse...

entre o perigo e a lembrança qual vc prefere?

Anônimo disse...

queria preferir o perigo, mas não sei deizer porque vivo de lembranças,elas são tão maravilhosas e me fazem tão feliz.

Sidinei Cruz Sobrinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sidinei Cruz Sobrinho disse...
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Sidinei Cruz Sobrinho disse...

então por que não sai do anonimato?